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Espelhos, uma história quase universal

03/04/2008 · Deixe um comentário

Alguns capítulos do livro “Espelhos/ Uma história quase universal”, de Eduardo Galeano, que em breve estará nas livrarias.

O herói
Como teria sido a guerra de Tróia contada do ponto de vista de um soldado anônimo? Um grego a pé, ignorado pelos deuses e desejado apenas pelos abutres que sobrevoam as batalhas? Um camponês metido a guerreiro, cantado por ninguém, por ninguém esculpido? Um homem qualquer, obrigado a matar e sem o menor interesse em morrer pelos olhos de Helena?

Teria pressentido esse soldado o que Eurípedes confirmou depois? Que Helena nunca esteve em Tróia, que somente sua sombra esteve ali? Que dez anos de matanças ocorreram por uma túnica vazia?

E se esse soldado sobreviveu, o que lembrou?

Quem sabe.

Talvez o cheiro. O cheiro da dor, e simplesmente isso.

Três mil anos depois da queda de Tróia, os correspondentes de guerra Robert Fisk e Fran Sevilla contam que as guerras têm cheiro. Eles estiveram em várias, sofreram-nas por dentro, e conhecem esse cheiro de podridão, quente, doce, pegajoso, que se mete por todos os poros e instala-se no corpo. É uma náusea que jamais te abandonará.

Americanos
Conta a história oficial que Vasco Núñez de Balboa foi o primeiro homem que viu, desde um cume do Panamá, os dois oceanos. Os que ali viviam, eram cegos?

Quem colocou seus primeiros nomes no milho e na batata e no tomate e no chocolate e nas montanhas e nos rios da América? Hernán Cortés, Francisco Pizarro? Os que ali viviam, eram mudos?

Os peregrinos do Mayflower escutaram: Deus dizia que a América era a Terra Prometida. Os que ali viviam, eram surdos?

Depois, os netos daqueles peregrinos do norte apoderaram-se do nome e de todo o resto. Agora, americanos são eles. Os que vivemos nas outras Américas, o que somos?

Fundação dos desaparecimentos
Milhares de mortos sem sepultura deambulam pela pampa argentina. São os desaparecidos da última ditadura militar.

A ditadura do general Videla aplicou em escala jamais vista o desaparecimento como arma de guerra. Aplicou, mas não inventou. Um século antes, o general Roca utilizou contra os índios esta obra prima da crueldade, que obriga cada morto a morrer várias vezes e que condena seus queridos a ficarem loucos perseguindo sua sombra fugitiva.

Na Argentina, como em toda a América, os índios foram os primeiros desaparecidos. Desapareceram antes de aparecer. O general Roca chamou de conquista do deserto a sua invasão das terras indígenas. A Patagônia era um espaço vazio, um reino do nada, habitado por ninguém.

E os índios continuaram desaparecendo depois. Os que se submeteram e renunciaram à terra e a tudo, foram chamados de índios reduzidos: reduzidos até desaparecer. E os que não se submeteram e foram vencidos à bala e sabraços, desapareceram transformados em números, mortos sem nome, nos comunicados militares. E seus filhos desapareceram também: repartidos como butim de guerra, chamados com outros nomes, esvaziados de memória, escravinhos dos assassinos de seus pais.

Pai ausente
Robert Carter foi enterrado no jardim.

Em seu testamento, pediu descansar debaixo de uma árvore de sombra, dormindo em paz e escuridão. Nenhuma pedra, nenhuma inscrição.

Este patrício da Virgínia foi um dos mais ricos, talvez o mais, entre todos aqueles prósperos proprietários que se tornaram independentes da Inglaterra.

Apesar de que alguns pais fundadores dos Estados Unidos tinham má opinião sobre a escravidão, nenhum deles libertou seus escravos. Carter foi o único que desacorrentou seus quatrocentos e cinqüenta negros para deixá-los viver e trabalhar segundo sua própria vontade e prazer. Libertou-os gradualmente, cuidando que nenhum fosse lançado no desamparo, setenta anos antes de que Abraham Lincoln decretasse a abolição.

Esta loucura condenou-o à solidão e ao esquecimento.

Deixaram-no sozinho seus vizinhos, seus amigos e seus parentes, todos convencidos de que os negros livres ameaçavam a segurança pessoal e nacional.

Depois, a amnésia coletiva foi a recompensa por seus atos.

A Justiça vê
A história oficial do Brasil continua atraindo inconfidências, deslealdades, às primeiras revoltas pela independência nacional.

Antes que o príncipe português se transformasse em imperador brasileiro, houve várias tentativas patrióticas. As mais importantes foram as de Minas Gerais e da Bahia.

O único protagonista da Inconfidência Mineira que foi enforcado e esquartejado, Tiradentes, era um militar de baixa graduação. Os demais conspiradores, senhores da alta sociedade mineira fartos de pagar impostos coloniais, foram indultados.

No fim da Inconfidência Baiana, o poder colonial indultou todos, com quatro exceções: Manoel Lira, João do Nascimento, Luís Gonzaga e Lucas Dantas foram enforcados e esquartejados. Os quatro eram negros, filhos ou netos de escravos.

Há quem acredite que a Justiça é cega.

Olympia
São femininos os símbolos da revolução francesa, mulheres de mármore ou bronze, poderosas tetas nuas, gorros frígios, bandeiras ao vento.

Mas a revolução proclamou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, e quando a militante revolucionária Olympia de Gouges propôs a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, a guilhotina cortou sua cabeça.

Ao pé do cadafalso, Olympia perguntou:

– Se as mulheres estamos capacitadas para subir na guilhotina, por que não podemos subir nas tribunas públicas?

Não podiam. Não podiam falar, não podiam votar.

As companheiras de luta de Olympia de Gouges foram trancadas no hospício. E pouco depois de sua execução, foi a vez de Manon Roland. Manon era a esposa do ministro do Interior, mas nem isso pôde salvá-la. Foi condenada por sua antinatural tendência à atividade política. Ela tinha traído sua natureza feminina, feita para cuidar do lar e parir filhos valentes, e havia cometido a mortal insolência de meter o nariz nos masculinos assuntos de estado.

E a guilhotina caiu de novo.

Os invisíveis
Em 1869, o canal de Suez tornou possível a navegação entre dois mares.

Sabemos que Ferdinand de Lesseps foi autor do projeto, que o paxá Said e seus herdeiros venderam o canal aos franceses e aos ingleses em troca de pouco ou nada, que Giuseppe Verdi compôs a ópera Aída para que fosse cantada na inauguração e que noventa anos depois, após uma longa e dolorosa disputa, o presidente Gamal Abdel Nasser conseguiu que o canal fosse egípcio.

Quem lembra dos cento e vinte mil presidiários e camponeses, condenados a trabalhos forçados, que construindo o canal caíram assassinados pela fome, a fadiga e a cólera?

Em 1914, o canal do Panamá abriu um talho entre dois oceanos.

Sabemos que Ferdinand de Lesseps foi autor do projeto, que a empresa construtora faliu, em um dos mais estrondosos escândalos da história da França, que o presidente dos Estados Unidos, Teddy Roosevelt, apoderou-se do canal e do Panamá e de tudo o que encontrou pelo caminho, e que sessenta anos depois, após uma longa e dolorosa disputa, o presidente Omar Torrijos conseguiu que o canal fosse panamenho.

Quem lembra dos operários antilhanos, indianos e chineses que caíram construindo o Canal? Por cada quilômetro morreram setecentos, assassinados pela fome, a fadiga, a febre amarela e a malária.

As invisíveis
Mandava a tradição que os umbigos das recém nascidas fossem enterrados debaixo da cinza do fogão, para que cedo aprendessem qual é o lugar da mulher, e que daí não se sai.

Quando estourou a revolução mexicana, muitas saíram, mas levando o fogão nas costas. Por bem ou por mal, por seqüestro ou por vontade, seguiram os homens de batalha em batalha. Levavam o bebê grudado na teta e nas costas as panelas e as caçarolas. E as munições: elas encarregavam-se de que não faltassem tortillas nas bocas nem balas nos fuzis. E quando o homem caía, empunhavam a arma.

Nos trens, os homens e os cavalos ocupavam os vagões. Elas viajavam nos tetos, rogando a Deus que não chovesse.

Sem elas, soldaderas, cucarachas, adelitas, vivanderas, galletas, juanas, pelonas, guachas, essa revolução não teria existido.

Nenhuma recebeu pensão.

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Seção Entrelinhas

18/03/2008 · Deixe um comentário

Iniciamos com uma crônica retirada do blog www.ohvarios.wordpress.comAproveitem!

Procura-se amigo homem

Por Anna Carla RibeiroSabe, acho que eu preciso de um amigo homem. Não que eu não tenha, muito pelo contrário, meus amigos são tão presentes na minha vida quanto as minhas fantásticas idéias geniais de adquirir novas amizades. É que eu preciso de alguém do sexo oposto novinho em folha pra contar o que os meus velhos amigos já estão carecas de saber: que eu odeio azeitona, que eu comia adoçante debaixo da mesa da vovó, que o meu nome tinha que ter sido Ágatha. Preciso de alguém para divulgar toda a saga desastrosa e irônica que é a minha vida amorosa. Preciso ouvir o som das gargalhadas dele ao saber que eu já namorei um “cabelo de samambaia” com cara de artesão de durepox e que ia me buscar de patins e moletom ao meio dia de uma segunda-feira em pleno sol escaldante de Belém do Pará. Preciso ouvir um “que idiota!” quando eu contar que aquele egocêntrico, baixinho, que me fazia querer ter a fórmula do desaparecimento quando dançava reggae, resolveu dar em cima de uma amiga (minha!) na frente de todos os meus colegas de trabalho. Preciso de ouvidos másculos para ouvir as minhas velhas piadas, as minhas novas crenças e o meu CD novo do Ludov.
Não, eu não estou com problemas. A cada dia que passa me sinto mais inspirada para dar aquele salto da cama quando acordo, mesmo sendo uma maníaca mal-humorada às 7 da manhã. Muito bem resolvida. Acho que pela primeira vez na vida estou bem comigo, com o meu começo de carreira bem-sucedido, com as minhas adoráveis companhias diárias, com os meus finais de semana, com o primeiro “eu te amo e tenho orgulho de ti” que pude ouvir do meu pai, com a minha barriga e meu cabelo. Eu realmente estou me sentindo foda por ter conseguido enterrar uma semente de velhas mágoas naquele quintal de fitas de cetim. E, sabe-se lá Deus porque, pude colher uma auto-estima forte e renovada, com aquele cheiro de eucalipto que surge pela manhã. Pela primeira vez eu não pretendo socar uma paixão na outra, como se a minha companhia me assombrasse mais que a própria solidão. Não, nada disso. Cresci, amadureci. Não tenho planos, nem amores, nem discussões, nem assuntos mal resolvidos. Não devo nada a ninguém e ninguém me deve nada. Quer dizer, me devem alguns trocados, mas deixa pra lá.
Preciso de um novo amigo justamente pra compartilhar este momento de pura alegria, porque me sinto feliz mesmo quando não tenho motivos. Preciso contar as minhas histórias, devaneios e ironias para ele anotar tudo mentalmente e me lembrar depois. Quero um amigo que seja só amigo, como os meus amigos. E então, surge a pergunta: porque Diabos eu quero um amigo e não um grande amor de contos de fadas?
Bom, primeiramente eu quero deixar claro que a cada dia que passa acredito mais no amor. Não estou passando por nenhuma fase traumática que tenha me feito desacreditar que existe, em algum cantinho escondido, o tal do homem da minha vida. Mas de tanta ansiedade, procurei-o em muitos outros, que nem de longe poderiam ocupar tal papel. Coloquei a carroça na frente dos bois e acabei me atropelando. O fato é que eu tenho 22 anos e cinco dias, uma tonelada de sonhos nas minhas costas e nem todos são destinados a tal criatura divina que irá me suportar pelo resto dos seus dias.
Confesso que tenho medo. Minha alma anda tão serena que estou fechada pra balanço. Me coloquei dentro de um baú e o lacrei com ferro fundido. Quero me curtir assim, pelo menos por um tempo, e uma nova grande paixão poderia estragar tudo outra vez, e me fazer roer as unhas que já estão até crescidinhas!
Tudo isso até eu encontrar alguém que faça valer a pena. Mas quem?!
Ando cansada dos malucos e de suas maluquices e bizarrices que em um primeiro momento me soam como engraçadinhas. É tudo uma questão de profundidade, ou melhor, de intimidade mesmo. Não agüento mais anarquistas frustrados, parentes do Che Guevara e todas as suas revoluções verbais entre um baseado e outro no quartinho dos fundos da casa da avó. Ora, cale-se! Quer combater o sistema? Então primeiro pare de ficar parado só dando um balão pela cidade feito o canguru da Radiolux e saia por aí mostrando o seu potencial e ganhando espaço neste mundo capitalista para expressar as suas opiniões. Esqueça o saco que não pára de ser coçado e vá procurar um emprego. Que o mundo é injusto e cruel, todos estamos carecas de saber. Mas eu é que não vou ficar careca de tanto arrancar os meus cabelos todas as vezes que algum ser utópico resolver passar a tarde inteira falando mal dos Estados Unidos, mesmo nem sabendo o que é CPMF. Sou muito pé no chão pra eles.
Se dos malucos, que já sou craque em lidar, eu tenho medo, dos boyzinhos eu tenho pavor. Antes eu era ruiva, com um ar de coadjuvante de filme Cult, que estagiava numa rádio alternativa. Nenhum deles me olhava. Hoje eu continuo tendo as mesmas atitudes, só mudei de emprego e pintei o cabelo de loiro. E então, eles foram se aproximando com seus uísques importados, suas baladas em boates com outras fêmeas clones do meu cabelo. E é justamente assim que eu me sinto perto deles, mais uma fêmea oxigenada parecida com outras milhares de fêmeas oxigenadas que passam a noite inteira sentadas numa mesa de bar sem qualquer expressão. São seres desconhecidos, indecifráveis pra mim. Duvido que eles me aprovariam bebendo um Johnny Black na boca da garrafa e dançando freneticamente em cima da cadeira junto com as minhas amigas frenéticas. Não, definitivamente sou muito doida pra eles.
Ainda tenho medo dos mais novos porque não tenho paciência pra ser mãe de ninguém. Os mais velhos, por sua vez, estão sempre com aquela expressão de que sabem de tudo e me enchem de medo. Tenho medo dos sem grana porque é um saco ter que pagar tudo sozinha, e pânico dos com grana pelo constrangimento de não pagar nada. Tenho medo dos artistas, fotógrafos e todos aqueles que conseguem passar três dias se alimentando de luz solar e ficam a noite inteira em postura de lótus contemplando a lua porque a lua é linda, a natureza é linda, viva Jah, os cosmos, os alimentos orgânicos e as práticas orientais.
E os críticos sabe-tudo, que não vão ao cinema porque falam mal de todos os filmes que não são do Almodóvar, discutem a madrugada em bares pré-históricos sobre a guerra da Bósnia e preferem a bunda da Hebe Camargo a da Juliana Paes? Eles criticam tanto tudo o que aparece diante de suas fuças carregadas de um espírito suíno que eu não consigo parar de criticá-los. São uns chatos de galocha, uns chutes no culhão, pés no saco. Ah, odeio críticas. Desses eu não tenho medo não, eu tenho é raiva mesmo!
Tenho medo de rapazes que marcam um primeiro encontro no cinema. Eu sempre fico sem graça, tropeço no lixeiro, me engasgo com a pipoca, vou ao banheiro no meio do filme retocar a maquilagem e quando volto, fico meia hora procurando a cadeira onde estava sentada. Eu travo demais. Já nos primeiros encontros naquele barzinho ultra desembaraçado, entre um chope e outro, me bate aquele medo de ir embora todos os meus medos e eu fico com pânico de começar a falar todas as asneiras que passam pela minha cabeça. Eu destravo demais.
Sobram então aqueles seres indefinidos que querem te conhecer no meio da festa e te olham nos olhos (do cu) porque acham que só porque você está se divertindo numa noite de sexta-feira depois de uma semana cheia de trabalho pesado, você está afim de onda ou deve estar na seca (nem preciso dizer o que sinto por eles). Tem também aqueles seres legais que já te conhecem, sabem dos teus gostos, defeitos e qualidades, e por isso mesmo dão aquele medo de encará-los de outra forma e acabar perdendo uma boa amizade.
Por último, tem os homens armários que sempre se esbarram em mim em algumas festas que eu vou pra reafirmar que não tenho preconceito. Eu tenho mais medo das fotos sem camisa e gel no cabelo que eles colocam no Orkut do que propriamente deles. Dos jornalistas, escritores, e todos aqueles seres charmosos envolvidos de alguma forma com a literatura, que bebem um chopinho, tiram graça do próprio intelecto e possuem uma lábia poderosa, ah, desses eu tenho medo. Medo de mim quando estou perto deles. Medo de esquecer todos esses medos que se multiplicam em outros milhares de medos e me tornar medonhamente apaixonada.
Ah não, não quero mais tantas náuseas enrustidas de novo. Procura-se um amigo homem, por obséquio.

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