O Movimento

Entradas do Março 2008

A prova da esquerda brasileira e a dívida histórica com o povo paraguaio

25/03/2008 · Deixe um comentário

A esquerda brasileira, marcadamente os movimentos sociais e partidos como PT e PC do B, entre outros, reivindicam a solidariedade com os povos oprimidos, a luta pela justiça social, reforma agrária e superação do capitalismo. Diante de tais acúmulos históricos está posta à prova a coerência de tais bandeiras de luta com as eleições gerais do Paraguai, cuja votação ocorrerá dia 20 de abril. O internacionalismo é um dos pilares do pensamento marxista e requer discernimento do nacionalismo, assim como a reivindicação de soberania energética da Bolívia, Brasil e Argentina (em condições distintas) serão questionados sobre suas políticas externas, principalmente no que tange os acordos na área energética que envolvem as usinas binacionais de Itaipu (Brasil-Paraguai) e Yacyretá (Brasil-Argentina).

No caso brasileiro-paraguaio a injustiça reside no fato do Tratado de Itaipu estabelecer que o Brasil possa comprar o excedente energético paraguaio à preços quase de custo, claramente favorecendo o estado brasileiro e relegando ao povo paraguaio a miséria reservada aos oprimidos pelos exploradores, no caso o Brasil. É questionável a manutenção de tal política, não só do ponto de vista prático, mas também do ponto de vista jurídico, uma vez que o acordo foi firmado entre duas ditaduras militares que governavam os paises à época, tendo sido assinado pelos ditadores Médice (Brasil) e Stroessner (Paraguai). Fora a dívida histórica do estado brasileiro com o povo paraguio advinda de vários outros fatores, inclusive da Guerra do Paraguai, onde as forças armadas brasileiras dizimaram 70% da população paraguaia e desmantelaram o seu estado, hecatombe até hoje louvada na história oficial brasileira.

A polêmica sobre o tratado desleal foi reacendida pela campanha do ex-bispo Fernando Lugo, candidato pela “Aliança Patriótica pela Mudança” à presidência do Paraguai. Lugo, que é adepto da teologia da libertação, destaca-se pela trajetória em comum com os movimentos sociais do Paraguai e renunciou ao seu bispado em dezembro passado para ajudar a escrever uma nova era na história do país, governado à mais de 60 anos pelo conservador “Partido Colorado”. A campanha de Lugo possui como plataformas centrais duas propostas que envolvem o Brasil: a reforma agrária, que entre outras medidas afetará os latifundiários brasileiros, parte do grupo social denominado brasiguaios, proprietários de terra na região da fronteira paraguaia com o Brasil, majoritariamente monoculturas de soja e cana-de-açúcar; e a rediscussão do acordo energético de Itaipu, principalmente no que se refere a obrigatoriedade de venda do excedente energético paraguaio ao Brasil por preços quase de custo.

A campanha de Lugo detem amplo apoio popular, precedente histórico no Paraguai, onde jamais uma aliança de centro-esquerda aproximou-se de ganhar as eleições, marcadas por recorrentes fraudes eleitorais perpretadas pelo aparelhismo do Partido Colorado. São esperados mais de 200 observadores internacionais para fiscalizar o processo, tarefa árdua tendo em vista o histórico fraudulento dos pleitos e o apoio aberto do Tribunal Superior de Justiça Eleitoral à candidata governista Blanca Ovelar, bem como aos demais concorrentes do partido Colorado, expresso claramente através de declaração pública recente do presidente da corte.

O Governo brasileiro por sua vez já demonstra sua faceta imperialista rechaçando a idéia através do dirigente brasileiro de Itaipu e do Ministro das Relações Exteriores. Já o PT no seminário “Protagonismo popular, soberania e integração”, promovido pelo Movimento Tekojoja, no Paraguai, comprometeu-se a formalizar o apoio à candidatura de Fernando Lugo e discutir a questão dos brasiguaios e da energia, . Onde Secretário de Relações Internacionais, Valter Pomar, representando o partido, participou de mesa de debates juntamente com Emir Sader, secretário-executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO) e o próprio candidato à presidência Fernando Lugo.

Tal posicionamento é tímido diante da importância do tema e dos seus desdobramentos para o país. De concreto, o governo Lula não reviu o acordo e continua a defendê-lo. No caso boliviano, após muita pressão de todos os lados o governo Lula optou pela via da negociação com a Bolívia, após não restarem muitas alternativas, retardando o processo de nacionalização dos recursos naturais do país irmão, o que desviou os esforços do governo Evo Morales por muito tempo numa conjuntura em que a revolução democrática boliviana se vê em confrontos suficientemente grandes com a oposição elitista, tendo sido desnecessário os incidentes com o Presidente da Petrobrás e o retardo nas negociações. O que caracteriza mais uma incoerência para a coleção da experiência da esquerda à frente do governo de coalizão. Tal postura não causa estranheza se analisarmos a posição do do governo com relação aos seus próprios recursos naturais, onde a extinta estatal Companhia Vale do Rio Doce, atual Vale, cresce livremente explorando a riquesa nacional por uma ninharia de royaltes e mandando e desmandando na política nacional, rumo à internacionalização do seu controle, etapa que fechará o ciclo do maior roubo da história brasileira desde a invasão européia.

Neste momento, não podemos ficar inertes ao processo de mudanças na América Latina e nos ausentarmos, como na fraude eleitoral das eleições mexicanas e a falta de postura firme no que tange o apoio aos pares venezuelano e boliviano. É dada a hora dos movimentos sociais brasileiros e os partidos políticos de esquerda optarem pelo apoio irrestrito de mudanças no continete, compreendendo o desenvolvimento do povo latino-americano como um todo, para além de discursos de união e proximidade. Muitos já o fazem, caso do MST e da Marcha Mundial das Mulheres, presentes no Paraguai como observadores internacionais do processo eleitoral e cientes de que posição apoiar.

É hora também do governo brasileiro elevar o nível da sua diplomacia, modificando sua postura cupulista e dando vozes as posições mais progressistas dentro do Itamaraty, optando por uma política internacional que fortaleça todos os aspectos das relações latino-americanas de fato, e não somente os comerciais. Se o país quiser exercer um papel protagonista na região, deve deixar de bajular e coadunar com as posições conservadoras das grandes potências, o que na prática significa sacrificar o sonho remoto de inclusão permanente no Conselho de Segurança da ONU (órgão autoritário que só serve aos interesses bélicos) e apostar na unificação regional. Num contexto de clara opção do povo latino americano pela esquerda, o suposto “líder regional” também deve postar-se como tal, pela esquerda! A começar pela substituição do Ministro Celso Amorim, remanescente do governo FHC, pelo atual Secretário-Geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães, quadro da diplomacia brasileira muito mais alinhado com a proposta de integração regional e com legitimidade para conduzir uma política externa de fortalecimento regional, uma vez que sempre defendeu a tese e postou-se contra as iniciativas imperialistas na região como a ALCA, independentemente do governo, contrário de Celso Amorim.

Para melhor compreensão do tema sugiro as seguintes leituras:

Usina de Itaipu na mira das eleições no Paraguai, Agência Chasque;

Lugo: “Por fin alguien le hace doler la cabeza a Brasil”, La Nacion;

Tratado de Itaipu sí será revisado con Fernando Lugo en el Gobierno, dice Tekojoja e Reforma agraria integral y recuperación dela soberanía fueron rafiticados por Lugo, Somos Paraguay;

Dirigente paraguaio quer “solidariedade democrática” do PT contra fraude eleitoral, portal do PT;

O mundo multipolar e a integração sul-americana, Agência Carta Capital.

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Estratégia continental

19/03/2008 · Deixe um comentário

Nada substitui a inteligência e a lucidez diante de acontecimentos atuais, a prova disso é um brilhante artigo de Boaventura de Sousa Santos*, com toda certeza um dos maiores pensadores da atualidade. Confira o artigo publicado originalmente no jornal argentino Página 12, traduzido por Naila Freitas da Verso Tradutores e republicado pelo portal da agência Carta Maior.

Sobre a incursão do exército colombiano em território do Equador para eliminar um grupo de guerrilheiros das FARC, parece estar tudo dito; principalmente se parece como um caso encerrado, encerrado com sucesso. Mas a verdade é que não é bem assim. O que é revelado sobre a situação é tão importante quanto aquilo que se oculta.

Primeiro ocultamento: os processos políticos na América Latina questionam o controle continental que os EUA precisam para garantir o livre acesso aos recursos naturais da região. Trata-se de uma ameaça à segurança nacional dos EUA que, diante do fracasso iminente das respostas “consensuais” (livre comércio e concessões para as bases militares), busca uma resposta firme e unilateral. Ou seja, a guerra global contra o terrorismo chega ao continente – chegou com o Plano Colômbia, mas a incursão no Oriente Médio provocou algum atraso – e assume aqui as mesmas características que adquiriu em outros continentes: utilizar um aliado privilegiado (seja a Colômbia, Israel ou Paquistão), ao que, ao longo do tempo, se proporciona ajuda militar e informação de espionagem sofisticados, deixando-o ao abrigo de represálias e permitindo-lhe ações dramáticas de baixo custo e um êxito certeiro; incita-se este aliado ao isolacionismo regional como preço a pagar pela aliança hegemônica.

A guerra contra o terrorismo inclui ações muito visíveis e outras secretas. Entre as últimas estão os atos de espionagem e de desestabilização; Bolívia, Venezuela, a tríplice fronteira (Paraguai, Brasil, Argentina) são os alvos privilegiados. Na Bolívia, bolsistas norte-americanos da Fundação Fulbright são chamados pela Embaixada dos EUA para dar informação sobre a presença de cubanos e venezuelanos e sobre movimentos indígenas suspeitos; enquanto os separatistas extremistas de Santa Cruz são treinados na selva colombiana pelos paramilitares. Novos fatos: nas ações de desestabilização podem participar empresas militares e de segurança privada, contratadas pelos EUA sob o parapeito do Plano Colômbia que, além disso, dota-as de imunidade diplomática e, portanto, de impunidade diante da Justiça nacional.

Segundo ocultamento: a verdadeira ameaça não são as FARC. São as forças progressistas e, em especial, os movimentos indígenas e campesinos. De fato, a permanência das FARC é fundamental para manter a justificação da guerra contra o terrorismo e gerar um clima de medo e uma lógica bélica que bloqueia o avanço das forças progressistas, denominadas Pólo Democrático da Colômbia.

Pela mesma razão, a intervenção humanitária a favor dos reféns teve que ser desmontada para que Hugo Chávez não obtivesse crédito político. As forças políticas progressistas ameaçam a dominação territorial dos EUA através de medidas que buscam fortalecer a soberania dos países sobre os recursos naturais e alterar as regras da distribuição dos benefícios da sua exploração.

Mas a maior ameaça vem daqueles que invocam direitos ancestrais sobre os territórios onde estão esses recursos, ou seja, dos povos indígenas. Com relação a isto, é eloqüente o relatório Tendências Globais-2020, produzido pelo Conselho Nacional de Informação dos EUA, sobre os cenários de ameaça à segurança nacional do país. No relatório afirma-se que as reivindicações territoriais dos movimentos indígenas “representam um risco para a segurança regional” e são um dos “fatores principais que determinarão o futuro latino-americano”. Tomando como exemplo as lutas indígenas de Chiapas, Equador, Bolívia, Chile e sul da Argentina, afirma que “no início do século XXI existem grupos indígenas radicais na maioria dos países latino-americanos, os quais em 2020 poderão crescer exponencialmente, obtendo a adesão da maioria dos povos indígenas… Estes grupos poderão estabelecer relações com grupos terroristas internacionais e grupos antiglobalização… que irão questionar as políticas econômicas das lideranças de origem européia”.

Uma vez conhecido tudo isto, não surpreende que o presidente do Peru se pergunte “se não haverá uma internacional terrorista na América Latina”. Também não surpreende que atualmente centenas de líderes indígenas do Peru e do Chile tenham sido acusados, ao amparo de leis antiterroristas promulgadas nestes e outros países (por pressão dos EUA), por defender seus territórios. A estratégia fica, então, delineada: transformar os movimentos indígenas na próxima geração de terroristas e, para enfrentá-los, seguir as receitas apontadas no relatório: tolerância zero, reforços para gastos militares, estreitamento das relações com os EUA. A responsabilidade das forças políticas progressistas é conseguir que esta estratégia fracasse.

*Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).

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Seção Entrelinhas

18/03/2008 · Deixe um comentário

Iniciamos com uma crônica retirada do blog www.ohvarios.wordpress.comAproveitem!

Procura-se amigo homem

Por Anna Carla RibeiroSabe, acho que eu preciso de um amigo homem. Não que eu não tenha, muito pelo contrário, meus amigos são tão presentes na minha vida quanto as minhas fantásticas idéias geniais de adquirir novas amizades. É que eu preciso de alguém do sexo oposto novinho em folha pra contar o que os meus velhos amigos já estão carecas de saber: que eu odeio azeitona, que eu comia adoçante debaixo da mesa da vovó, que o meu nome tinha que ter sido Ágatha. Preciso de alguém para divulgar toda a saga desastrosa e irônica que é a minha vida amorosa. Preciso ouvir o som das gargalhadas dele ao saber que eu já namorei um “cabelo de samambaia” com cara de artesão de durepox e que ia me buscar de patins e moletom ao meio dia de uma segunda-feira em pleno sol escaldante de Belém do Pará. Preciso ouvir um “que idiota!” quando eu contar que aquele egocêntrico, baixinho, que me fazia querer ter a fórmula do desaparecimento quando dançava reggae, resolveu dar em cima de uma amiga (minha!) na frente de todos os meus colegas de trabalho. Preciso de ouvidos másculos para ouvir as minhas velhas piadas, as minhas novas crenças e o meu CD novo do Ludov.
Não, eu não estou com problemas. A cada dia que passa me sinto mais inspirada para dar aquele salto da cama quando acordo, mesmo sendo uma maníaca mal-humorada às 7 da manhã. Muito bem resolvida. Acho que pela primeira vez na vida estou bem comigo, com o meu começo de carreira bem-sucedido, com as minhas adoráveis companhias diárias, com os meus finais de semana, com o primeiro “eu te amo e tenho orgulho de ti” que pude ouvir do meu pai, com a minha barriga e meu cabelo. Eu realmente estou me sentindo foda por ter conseguido enterrar uma semente de velhas mágoas naquele quintal de fitas de cetim. E, sabe-se lá Deus porque, pude colher uma auto-estima forte e renovada, com aquele cheiro de eucalipto que surge pela manhã. Pela primeira vez eu não pretendo socar uma paixão na outra, como se a minha companhia me assombrasse mais que a própria solidão. Não, nada disso. Cresci, amadureci. Não tenho planos, nem amores, nem discussões, nem assuntos mal resolvidos. Não devo nada a ninguém e ninguém me deve nada. Quer dizer, me devem alguns trocados, mas deixa pra lá.
Preciso de um novo amigo justamente pra compartilhar este momento de pura alegria, porque me sinto feliz mesmo quando não tenho motivos. Preciso contar as minhas histórias, devaneios e ironias para ele anotar tudo mentalmente e me lembrar depois. Quero um amigo que seja só amigo, como os meus amigos. E então, surge a pergunta: porque Diabos eu quero um amigo e não um grande amor de contos de fadas?
Bom, primeiramente eu quero deixar claro que a cada dia que passa acredito mais no amor. Não estou passando por nenhuma fase traumática que tenha me feito desacreditar que existe, em algum cantinho escondido, o tal do homem da minha vida. Mas de tanta ansiedade, procurei-o em muitos outros, que nem de longe poderiam ocupar tal papel. Coloquei a carroça na frente dos bois e acabei me atropelando. O fato é que eu tenho 22 anos e cinco dias, uma tonelada de sonhos nas minhas costas e nem todos são destinados a tal criatura divina que irá me suportar pelo resto dos seus dias.
Confesso que tenho medo. Minha alma anda tão serena que estou fechada pra balanço. Me coloquei dentro de um baú e o lacrei com ferro fundido. Quero me curtir assim, pelo menos por um tempo, e uma nova grande paixão poderia estragar tudo outra vez, e me fazer roer as unhas que já estão até crescidinhas!
Tudo isso até eu encontrar alguém que faça valer a pena. Mas quem?!
Ando cansada dos malucos e de suas maluquices e bizarrices que em um primeiro momento me soam como engraçadinhas. É tudo uma questão de profundidade, ou melhor, de intimidade mesmo. Não agüento mais anarquistas frustrados, parentes do Che Guevara e todas as suas revoluções verbais entre um baseado e outro no quartinho dos fundos da casa da avó. Ora, cale-se! Quer combater o sistema? Então primeiro pare de ficar parado só dando um balão pela cidade feito o canguru da Radiolux e saia por aí mostrando o seu potencial e ganhando espaço neste mundo capitalista para expressar as suas opiniões. Esqueça o saco que não pára de ser coçado e vá procurar um emprego. Que o mundo é injusto e cruel, todos estamos carecas de saber. Mas eu é que não vou ficar careca de tanto arrancar os meus cabelos todas as vezes que algum ser utópico resolver passar a tarde inteira falando mal dos Estados Unidos, mesmo nem sabendo o que é CPMF. Sou muito pé no chão pra eles.
Se dos malucos, que já sou craque em lidar, eu tenho medo, dos boyzinhos eu tenho pavor. Antes eu era ruiva, com um ar de coadjuvante de filme Cult, que estagiava numa rádio alternativa. Nenhum deles me olhava. Hoje eu continuo tendo as mesmas atitudes, só mudei de emprego e pintei o cabelo de loiro. E então, eles foram se aproximando com seus uísques importados, suas baladas em boates com outras fêmeas clones do meu cabelo. E é justamente assim que eu me sinto perto deles, mais uma fêmea oxigenada parecida com outras milhares de fêmeas oxigenadas que passam a noite inteira sentadas numa mesa de bar sem qualquer expressão. São seres desconhecidos, indecifráveis pra mim. Duvido que eles me aprovariam bebendo um Johnny Black na boca da garrafa e dançando freneticamente em cima da cadeira junto com as minhas amigas frenéticas. Não, definitivamente sou muito doida pra eles.
Ainda tenho medo dos mais novos porque não tenho paciência pra ser mãe de ninguém. Os mais velhos, por sua vez, estão sempre com aquela expressão de que sabem de tudo e me enchem de medo. Tenho medo dos sem grana porque é um saco ter que pagar tudo sozinha, e pânico dos com grana pelo constrangimento de não pagar nada. Tenho medo dos artistas, fotógrafos e todos aqueles que conseguem passar três dias se alimentando de luz solar e ficam a noite inteira em postura de lótus contemplando a lua porque a lua é linda, a natureza é linda, viva Jah, os cosmos, os alimentos orgânicos e as práticas orientais.
E os críticos sabe-tudo, que não vão ao cinema porque falam mal de todos os filmes que não são do Almodóvar, discutem a madrugada em bares pré-históricos sobre a guerra da Bósnia e preferem a bunda da Hebe Camargo a da Juliana Paes? Eles criticam tanto tudo o que aparece diante de suas fuças carregadas de um espírito suíno que eu não consigo parar de criticá-los. São uns chatos de galocha, uns chutes no culhão, pés no saco. Ah, odeio críticas. Desses eu não tenho medo não, eu tenho é raiva mesmo!
Tenho medo de rapazes que marcam um primeiro encontro no cinema. Eu sempre fico sem graça, tropeço no lixeiro, me engasgo com a pipoca, vou ao banheiro no meio do filme retocar a maquilagem e quando volto, fico meia hora procurando a cadeira onde estava sentada. Eu travo demais. Já nos primeiros encontros naquele barzinho ultra desembaraçado, entre um chope e outro, me bate aquele medo de ir embora todos os meus medos e eu fico com pânico de começar a falar todas as asneiras que passam pela minha cabeça. Eu destravo demais.
Sobram então aqueles seres indefinidos que querem te conhecer no meio da festa e te olham nos olhos (do cu) porque acham que só porque você está se divertindo numa noite de sexta-feira depois de uma semana cheia de trabalho pesado, você está afim de onda ou deve estar na seca (nem preciso dizer o que sinto por eles). Tem também aqueles seres legais que já te conhecem, sabem dos teus gostos, defeitos e qualidades, e por isso mesmo dão aquele medo de encará-los de outra forma e acabar perdendo uma boa amizade.
Por último, tem os homens armários que sempre se esbarram em mim em algumas festas que eu vou pra reafirmar que não tenho preconceito. Eu tenho mais medo das fotos sem camisa e gel no cabelo que eles colocam no Orkut do que propriamente deles. Dos jornalistas, escritores, e todos aqueles seres charmosos envolvidos de alguma forma com a literatura, que bebem um chopinho, tiram graça do próprio intelecto e possuem uma lábia poderosa, ah, desses eu tenho medo. Medo de mim quando estou perto deles. Medo de esquecer todos esses medos que se multiplicam em outros milhares de medos e me tornar medonhamente apaixonada.
Ah não, não quero mais tantas náuseas enrustidas de novo. Procura-se um amigo homem, por obséquio.

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Descriminalização, legalização e medicalização gradativos: segurança pública x hipocrisia

12/03/2008 · Deixe um comentário

A questão da proibição de algumas drogas necessita de um apanhado histórico e bom-senso. Os seres humanos não são os únicos animais que utilizam substâncias para os mais variados fins, por motivos inerentes a sua própria subexistência. Inclusive como alimentação.

O que difere as substâncias proibidas das liberadas, na nossa sociedade hoje, são interesses. Sim, se há grupos intressados na proibição de certas substâncias pode-se ter certeza que o mesmo defende interesses financeiros, de poder.

Para simplificar o debate, vamos exemplificar essa disputa com os efeitos devastadores da colonização da América pelos Impérios Português e Espanhol, além da Igreja Católica. Pois bem, os hábitos dos nativos do continente, com indícios históricos, incluem o consumo de uma rica gama de substâncias na medicina tradicional, bem como para fins ritualísticos. Podemos citar: o chá da planta Chacrona com o Cipó Mariri, consumido em toda a América do Sul, conhecido como ayahuasca, xamãe, daime, vegetal, etc (substâncias ativas DMT e MAOi); o peyote do cacto homônimo consumido na América Central e do Norte (substância ativa mescalina); o tabaco, natural da América, consumido tradicionamente de forma racional em rituais (substância ativa nicotina); folha de coca, consumida em todo altiplano andino (substância ativa cocaína); entre milhares de outras substâncias, como a icuana, kambô (vacina do sapo), etc. Todos esses hábitos foram proibidos por argumentos religiosos com excessão do tabaco, para o qual foi agregado valor de comércio distorcendo a qualidade e forma de consumo. Uma das formas de dominação, e a mais comum diga-se de passagem, é o extermínio dos povos que insistirem em manter suas tradições.

Na atual conjuntura, é notório (inclusive por dados da Organização Mundial de Saúde) que a ampla maioria dos seres humanos consomem substâncias consideradas maléficas à saúde, conceito conservador das drogas. Portanto, não se trata de liberar o consumo, ele existe. Então a quem interessa a proibição? Respondo, a escória da humanidade, ou seja, os grupos que se beneficiam do tráfico ilegal de bens, da produção armamentícia e da colonização. Sim, pois da proibição das drogas nasce o tráfico ilegal de drogas, o armamento dos grupos envolvidos no comércio ilegal e o predomínio da visão preconceituosa e colonizadora do uso de substâncias tradicionais. É importante frisar, que por tradicionais estamos nos referindo a vários milênios de uso.

Fora isso, há também o paralelo óbvio com as drogas legalizadas, e normalmente mais maléficas que as proibidas. Por exemplo, o consumo irracional do álcool e do tabaco. De onde vem a irracionalidade desse consumo, da natureza humana? Não, mas da propaganda, do comércio capitalista. Sim, pois por milênios não foi assim. Mas seria possível um consumo racional no sistema capitalista? Com certeza se há essa possibilidade ela vem da regulamentação, pois o comércio ilegal funciona perfeitamente no capitalismo.

Curiosamente, um retrato claro do preconceito é a proibição d0 cânhamo, da mesma família da maconha que possui quantidades insuficeintes de THC (efeito ativo) para o uso recreativo, porém possui inúmeras propriedades para a indústria têxtil, sendo matéria prima para o melhor tipo e papel do Mundo, evitando o plantio e corte dos desertos verdes de eucalipto….

No Brasil, o movimento mais notório é o da legalização da maconha. Um exemplo de organização é a Marcha da Maconha, núcleo brasileiro de um movimento mundial que este ano ocorrerá em 10 capitais brasileiras.

Antes de tratar o assunto como secundário ou ironizar, lembre-se, o prazer sexual feminino também sofre do mesmo preconceito e “lobby contra” da igreja na educação sexual. A questão não é o que as plantas causam ao ser humano, mas como as utilizamos, ou se não, que proibamos também o arsênico, enxofre, etc, e mudemos os seres humanos e seu habitat…

Sobre o assunto, trago um artigo da publicação Le Monde Diplomatique Brasil.

 

Chamem a juíza Karam!

Legalizar o uso de drogas é quebrar o ciclo das armas, da corrupção, da repressão infligida às favelas e aos pobres, do extermínio. Aos poucos, a proposta ganha espaço entre a sociedade — ainda que contrarie a lógica da vingança e do gozo regressivo, escancarada em filmes como Tropa de Elite

Ivana Bentes

Assistir Meu Nome Não é Johnny depois de Tropa de Elite é ótimo para perceber os discursos estéticos e políticos que atravessam os filmes e seus personagens, frente à questão das drogas e da violência: de um lado, o mais novo herói brasileiro, o garoto-propaganda da cerveja turbinado como Capitão Nascimento e defendendo a “moral da tropa”, a “boa” polícia que destila ódio e ressentimento contra ONGs de “menininhas bonitas bem intencionadas”, demoniza jovens que fumam maconha (“quantas crianças vão para o tráfico para esse cara fumar um baseado”), e rotula todos com a mesma insígnia de “inimigos públicos número 1”: consumidores, traficantes, policia corrupta, ONGs, todos merecem um “corretivo” dos camisas-pretas.

O filme e o personagem não criam nenhuma brecha para qualquer questionamento, a ação arrasta o espectador para um discurso regressivo e vingativo, bastante popular, de culpabilização, moralismo e terror, sintetizados na cena em que o Capitão Nascimento enfia a cara de um consumidor num cadáver ensangüentado, berrando: “veado, maconheiro é você que financia essa merda!!!”

O prazer, o gozo regressivo do personagem em estado de excitação vai produzindo uma comoção fácil na platéia. A verdade da fúria santa e da “indignação”, o mesmo tipo de denuncismo e indignados que a mídia não cessa de repercutir e incensar, com a propagação de idéias e slogans simplórios, “contra a corrupção”, “contra dar dinheiro aos pobres”, contra qualquer política que crie uma real ruptura no estado das coisas.

Narrados na primeira pessoa, os dois filmes constroem uma identificação imediata, cinematográfica, entre o espectador e os personagens-narradores, a partir desses momentos de catarse. O Capitão Nascimento excitando nosso devir-fascista, com sua expertise, frases-feitas, camisa-preta e apologia da tortura, do extermínio e celebração da morte. O terror de Estado legitimado cinematográfica e socialmente. E, de outro lado, o narrador-experimentador, João Estrela, também falando na primeira pessoa do singular e partilhando seu devir-consumidor, devir-traficante, devir-família, devir-presidiário, devir-careta, sem que nada disso seja “incompossível”, nem tenha que ser demonizado e negado.

O espectador torna-se refém da lógica do Capitão Nascimento e de Matias, que só têm um devir: arrastar à repressão, à tortura, à infantilização do preto e da caveira

A primeira vítima da narrativa de Tropa da Elite é, portanto, o espectador, tornado refém da lógica do Capitão Nascimento e de Matias, aspirante a Capitão, que só têm um devir: virar assassinos fardados e arrastar o espectador no gozo regressivo da repressão, da tortura, e da infantilização, o Bope é o “bicho papão” de preto e caveira, fantasia carnavalesca que as crianças adotaram no Rio de Janeiro, “e que vai pegar você”.

O filme cola nesse discurso de tal forma que é impossível não querer o que ele quer e não justificar suas ações. O espectador torna-se refém. Não é coincidência que o símbolo do Bope é a mesma caveira-símbolo dos esquadrões da morte. A pulsão de morte e a adrenalina, o gozo imperativo e soberano em ver, infligir e se expor a violência está presente em todo o cinema de ação comercial, numa regressão planetária que reafirma a “autoridade absoluta”, o poder que normalizaria o caos e regraria a catástrofe, mesmo que utilize para isso a violência e arbitrariedade máximas. Toda a ideologia Bush, anti-terrorista, cabe aí. É o mesmíssimo discurso! A guerra infinita, a guerra total permanente.

O dualismo e pragmatismo do personagem do Capitão se repetem em cenas catárticas em que esculacha e sufoca com um saco plástico gosmento de sangue um garoto do tráfico, chutado, espancado, torturado, para passar mais informações. O filme justifica a tortura da “boa” polícia, como parte de sua expertise e eficiência. A tortura é apenas mais uma “tecnologia”, como o Caveirão, totalmente justificada, “moralmente” e cinematograficamente, como num “institucional do Bope”, como já disseram.

Meu nome não é Johnny aposta num anti-Capitão Nascimento, um anti-herói hedonista e sedutor, “no stress”, que cheira para se divertir, para amar, sem deixar de ser afetuoso, família, amigo, amante. A figura não-clichê de João Estrela sugere que o pressuposto de “um mundo sem drogas” é no mínimo hipócrita, e não leva em consideração a cultura, o desejo humano e um componente importante no cenário contemporâneo: o risco assumido e livre. Como a gordura trans e o álcool, qualquer droga seria um “direito” do consumidor. Por que não?

É sabido que o consumo de drogas não fere nem ameaça a rede social, é uma decisão, um risco individual. O consumo de drogas não seria menos epidêmico e arriscado que o consumo de gorduras, aditivos cancerígenos, miríades de estimulantes, calmantes, excitantes? No máximo, poderia ser um caso de saúde pública — não de polícia — desde que não houvesse a ilegalidade na produção e consumo.

Sobre a legalização das drogas, o Capitão Nascimento age como uma toupeira. Em Meu Nome não é Johnny, a questão aparece de forma mais interessante e complexa

São a ilegalidade e o proibicionismo que levam à criação de sistemas violentos para assegurar a produção e comércio das drogas. Grupos armados e para-militares para assegurar a produção e venda e defender o negócio da polícia e de outros concorrentes. Acertos de contas internos, zonas de controle de territórios pela violência armada, corrupção, subornos, assassinatos para assegurar a lavagem de dinheiro, cultura da delação e da traição, delação premiada, produzindo ódio, desconfiança e vingança generalizados.

Sobre a legalização das drogas, o Capitão Nascimento age como uma toupeira. Essa hipótese não existe para o personagem, nem para o filme, dramaturgicamente. Em Meu Nome não é Johnny, a questão aparece de forma mais interessante e complexa, mas não faz parte do mundo mental ou social dos personagens.

As hipóteses e explicações, nos filmes, patinam em clichês já sabidos (mas não custa repetir, Meu Nome não é Johnny é muito mais sofisticado e sutil).

Afinal, por que não circulam outros discursos sobre as drogas, como os da juíza de direito Maria Lúcia Karam ou do advogado carioca André Barros, que defendem e militam pela descriminalização, a medicalização e a legalização das drogas, com avanços gradativos?

O usuário podendo fazer uso de consumo individual, freqüentar salas de consumo, ter acompanhamento médico e controle da qualidade do produto, até chegarmos a legalização e controle do comércio de drogas, seja por empresas privadas ou pelo Estado.

Legalizar, defende a juíza, é quebrar o ciclo da violência das armas, da corrupção (da policia, de políticos, de empresários), da guetificação da violência e da repressão policial infligida às favelas e aos pobres, do uso e extermínio da mão-de-obra infantil e de jovens, da degradação da saúde, através do uso seguro. É romper um ciclo vicioso de violência já instalado.

Legalizar é acabar com a hipocrisia e combater a violência extrema e o regime de exceção e arbitrariedade legitimados pelo Estado, pela polícia, pela sociedade-anti-pobres e pelo tráfico, sócios na produção da atual barbárie.

Nem corrupção, nem omissão, nem guerra. A questão é de guerrilha, é não ficar refém do Capitão Nascimento, é minar os clichês e discursos conservadores.

Chega de vingança regressiva, chamem a juíza Karam!

lalala

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Via Campesina: trabahadoras e trabalhadores do Mundo unidos!

11/03/2008 · 1 Comentário

Quando Karl Marx e Friedrich Engels clamaram: “Trabalhadores do mundo, uni-vos!”. Talvez tivessem em mente algo parecido com as mobilizações da Via Campesina, exatos 160 anos depois do lançamento do Manifesto do Partido Comunista.

A Via Campesina, realiza manifestações em todo o Mundo, e no Brasil, principalmente através do Moviento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) literalmente pára a roda do capital com ocupações, bloqueios e manifestações.

Desde a semana passada ocorre a Jornada de Lutas que celebra o Dia Internacional da Mulher. Foram registrados atos em 17 estados brasileiros, confiram:

em São Paulo contra a Monsanto;

no Distrito Federal,

Paraná e

Rio de Janeiro contra a Syngenta;

no Rio Grande do Sul contra a Stora Enso;

em Pernambuco contra a monocultura da cana;

em Rondônia,

Mato Grosso,

Alagoas e

Pará com pautas estaduais;

em Minas Gerais e

Espírito Santo contra a Vale;

na Bahia ocuparam a Secretaria de Agricultura, Irrigação e Reforma Agrária;

no Maranhão contra a Vale;

no Mato Grosso do Sul contra a Cargill/Monsanto;

no Ceará contra as empresas transnacionais;

em Santa Catarina contra a Agroeste/Monsanto;

Rio Grande do Norte ocuparam a governadoria do estado.

Confira a cobertura da assessoria de imprensa do MST.

Com relação as companheiras da Via Campesina que ocuparam as terras ilegais da transnacional Stora Enso, divulgamos aqui a violência e a censura com as quais sofreu o movimento por parte do governo Yeda Crusius.

Eduardo Seidl

(manifestante da Via Campesina sendo atendida após agressões, foto: Eduardo Seidl)

A transnacional Stora Enso autorizada por um interdito proibitório, obteve a desocupação de uma de suas fazendas, no Rio Grande do Sul, contra as mulheres da Via Campesina que as ocupavam em protesto contra a ilegalidade do uso e a exploração da terra no Estado.

A “autoridade policial” repressora, declarou que “delinqüente é delinqüente.” O protesto das companheiras baseou-se na defesa da vida, do meio-ambiente e da segurança nacional garantida pela faixa de fronteira estabelecida na Constituição Federal (arts. 20 § 2º e 91, § 1º inc. III). Essa faixa foi violada pela Stora Enso, através de empresas brasileiras “laranjas” para burlar a proibição constitucional. Confira reportagem da assessoria de imprensa do MST com documentos que comprovam as acusações.

O meio-ambiente, como o art. 225 da Constituição Federal, é “bem de uso comum do povo” legitimando qualquer pessoa a defendê-lo, inclusive com o uso da própria força, conforme o artigo 188, inciso I do Código Civil, pois não são atos ilícitos “a deterioração ou destruição da coisa alheia, ou a lesão à pessoa, a fim de remover perigo iminente.”

A repersussão das truculências perpetuadas pelo governo do Rio Grande do Sul, capataz dos interesses do capital, extrapolaram as fronteiras do estado repercutindo internacionalmente. Inclusive com manifestações em reação aos crimes contra os brasileiros.

(Maraísa Talaska Porto denunciando no Senado as agressões cometidas pela brigada militar durante a desocupação, foto: Roosevelt Pinheiro/AgBr)
Durante a primeira audiência pública da Subcomissão Permanente de Defesa da Mulher no Senado, uma das iniciativas em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, foram denunciadas as violências sofridas pelas camponesas, como tiros de balas de borracha e estilhaços de bombas.Entidades nacionais e internacionais de Direitos Humanos publicaram nota condenando a ação policial, “A ocupação da Fazenda Tarumã por parte da Via Campesina em Rosário do Sul, município localizado a 80 quilômetros da fronteira com o Uruguai, foi completamente legítima para chamar a atenção das autoridades para as ilegalidades cometidas pela empresa finlandesa Stora Enso.

Esta multinacional, conforme apontam o Ministério Público Federal e o Instituto de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) daquele estado, desrespeita e burla a legislação brasileira ao adquirir terras na faixa de fronteira do País sem a devida autorização do Conselho Nacional de Defesa. Ademais, também utiliza artifícios espúrios, como a criação de uma empresa que serve de “laranja”, para garantir os seus objetivos.”

Confira reportagem da assessoria de imprensa do MST sobre a nota.

O motivo da defesa dos interesses do capital por parte da governadora Yeda Crusius reside num dos principais problemas do sistema político brasileiro, o financiamento privado de campanhas eleitorais, uma aberração da pseudo-democracia nacional.

As papeleiras doaram mais de de meio milhão de reais para a última campanha de Yeda. A divulgação das doações está disponível no sítio do Tribunal Superior Eleitoral (www.tse.gov.br). A Stora Enso e outras papeleiras como a Aracruz Celulose e Votorantin Papel e Celulose, doaram um total de R$ 506.557,45 à campanha da candidata Yeda Crusius, em de 2006.

Vejam os valores das doações das papeleiras para a governadora:

ARACRUZ CELUL. S/A. 42157511003934 18/09/2006 1.000,00 Descrição
das doações relativas à comercialização
ARACRUZ CELULOSE S. A. 42157511003934 18/08/2006 11.954,72
Recursos de pessoas jurídicas
ARACRUZ CELULOSE S/A. 42157511003934 05/10/2006 16.902,12 Recursos
de pessoas jurídicas
ARACRUZ CELULOSE S/A. 42157511003934 11/10/2006 51.700,61 Recursos
de pessoas jurídicas
ARACRUZ CELULOSE S/A. 42157511003934 20/10/2006 200.000,00
Recursos de pessoas jurídicas
STORA ENSO BRASIL LTDA. 02424298000192 16/10/2006 24.000,00
Recursos de pessoas jurídicas
VOTORANTIN PAPEL E CELULOSE LTDA. 60643228000121 23/11/2006
200.000,00 Recursos de pessoas jurídicas

Solicitado pelo Procurador Regional da República Domingos Sávio Dresh da Silveira, a Procuradoria da República do Rio Grande do Sul investiga a aquisição de 46 mil hectares de terras para a plantação de eucalipto naregião de fronteira. O Procurador acusa a Stora Enso de constituir empresa com sócios brasileiros “laranjas” para burlar a lei. A transnacional usaria a Azenglever para tal, caracterizando formação de quadrilha e falsidade idelógica, além de crime contra a soberania nacional.

Confira matéria excepcional da Ecoagência sobre o assunto.

Como reação a Associação de Amigos dos Sem Terra organizou um protesto na sede de Stora Enso em Helsinki, capital da Finlândia, condenando a ação policial contra camponesas do Rio Grande do Sul e acusando a transnacional de envolvimento indireto com os crimes contra as mulheres e crianças de MST.

Foi exigido também a retirada da empresa do Brasil, por essa estar agravando a situação dos conflitos de terra no país. Valendo lembrar que o Governo Finlandês detem 40% do capital da Stora Enso. Agora imagnem se a

Amigos dos Sem Terra na Finlândia condenam as operações ilegais de Stora Enso para conquistar terras no Rio Grande de Sul, e acusam empresa de agravar o conflito pela terra no Brasil.A associação também insistiu com o governo Finlandês que tome as medidas necessárias para pressionar empresa Stora Enso a retirar-se das atividades que prejudicam os direitos dos camponeses no Brasil, ou em qualquer outro pais. O governo Finlandês tem controle de 40 % da Stora Enso. Se isso ocorre num estado, avalie o tamahoda bancada do capital no Congresso Nacional, sim, sim, trata-se da maioria, sem dúvida.

Agora imaginem se a Petrobrás fizesse metade do que a Stora Enso na Europa… no mínimo o Brasil teria de desculpar-se perante a União Européia e torcer para não sofrer retaliações da Organização Mundial do Comércio (OMC)… durma-se com um barulho desses!

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8 de março, 8 de luta!

10/03/2008 · 1 Comentário

A despeito das “homenagens” às mulheres no 8 de março, como poemas anacrônicos, rosas, descontos de serviços de embelezamento e demais opressões disfarçadas de homenagens que insistem em reduzir as mulheres a padrões mercantilizados de beleza e papéis coadjuvantes na sociedade. A Marcha Mundial das Mulheres realizou atividades feministas em todo o Mundo, e no Pará fez um ato na Praça da Leitura em Ananindeua, com batuque e intervenções, e batuque e oficina na Agrovila João Batista II em Castanhal.

Em Ananindeua a companheira Silvana está iniciando o trabalho de construção da Marcha Mundial de Mulheres e contou com o apoio do Coletivo de Mulheres Estudantes do Pará e sua batucada feminista num ato no centro da cidade que contou com várias lideranças dos movimentos sociais com as companheiras Sandra Batista e Solange (líder comunitária do Conjunto Carlos Marighella), entre outras.

Vídeo do ato:

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Na Agrovila João Batista II, juntamente com as mulheres da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (FETRAF), em especial da companheira Soraia. A batucada feminista passou pelas ruas da agrovila convocando as trabalhadoras rurais para o centro comunitário onde foi exibido o filme educativo “Gênero, Mentiras e Videotape” (1995), de Lucila Meirelles, além da realização de oficina com teatro do oprimido com as trabalhadoras rurais da agrovila.

Vídeo da oficina:

Duas atividades importantíssimas do ponto de vista da construção e fortalecimento dos movimentos socias, especialmente da Marcha Mundial de Mulheres, entidade de vanguarda no processo do Fórum Social Mundial.

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MMM – TOTAL SOLIDARIEDADE A LUTA DAS MULHERES DA VIA CAMPESINA!

07/03/2008 · Deixe um comentário

Nota de solidariedade da Marcha Mundial das Mulheres
às mulheres da Via Campesina

Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, um dia de luta para mulheres de todo o mundo, as companheiras da Via Campesina cumprem o importante papel de denunciar a toda a sociedade gaúcha e brasileira os desmandos que o latifúndio e as transnacionais promovem no campo, numa ação que destaca o protagonismo das mulheres na luta por igualdade, autonomia e soberania popular.

Ao ocupar área ilegal de uma poderosa transnacional (Stora Enso), a ação das mulheres da Via Campesina questiona o sistema capitalista, que concentra terra e riquezas e aprofunda a miséria no campo e na cidade. A ação denuncia a ordem capitalista e machista que não reconhece e não valoriza o trabalho das mulheres no campo, relegando-as a um lugar de subordinação.

Repudiamos a ação da brigada militar gaúcha sob ordens do governo do estado do Rio Grande do Sul, comandado por Yeda Crusius, que agiu violentamente a serviço da ilegalidade operada pela transnacional. E exigimos a libertação da companheira Irma Ostroski, detida covardemente ao realizar exames de corpo de delito, após ser agredida na ação violenta da polícia.

Apoiamos as companheiras da Via Campesina: pela anulação da compra ilegal de terras pela Stora Enso na faixa de fronteira e sua expropriação para fins de reforma agrária; e pela retirada do projeto, da Câmara e do Senado, que propõe a redução da faixa de fronteira.

Dizer não à ação das transnacionais e ao agronegócio, é uma tarefa inadiável de todas e todos que lutam por um mundo de igualdade.

TOTAL SOLIDARIEDADE A LUTA DAS MULHERES DA VIA CAMPESINA!

Marcha Mundial das Mulheres

Categorias: Conjuntura nacional · Ecossocialismo · Feminismo

O DESAFIO DA INTEGRAÇÃO

07/03/2008 · Deixe um comentário

Sem palavras para esse brilhante artigo que é de uma visão estratégica ímpar, só encontrando pares nos grandes visionários de uma América Latina forte unida e solidária, como Simon Bolívar, José Carlos Mariátegui, Ernesto “Che” Guevara de La Sierna entre outros irmãos e irmãs separados pela violência e unidos pela cultura e utopia. Muito orgulha os etudantes de Direito da Universidade Federal do Pará (UFPA), em especial à gestão Direito em Movimento do Centro Acadêmico de Direito Edson Luís (CADEL), a honra de ter sido brindado por uma palestra do Samuel Pinheiro Guimarães durante a histórica I Semana Jurídica Paulo Fonteles em 2002. O Itamaraty, hoje, é sem dúvida um dos melhores órgãos públicos brasileiros, exemplo de planejamento estratégico, bastando somente uma postura mais firme quanto as relações recíprocas de leis de imigração, que humanizem as relações com os imigrantes sulamericanos e dispensem o mesmo tratamento dado aos brasilerios por europeus e norte americanos em suas alfândegas xenofóbicas.

Artigo escrito em 19 de julho de 2007

O mundo multipolar e a integração sul-americana

A importância essencial da América do Sul
1. A América do Sul se encontra, necessária e inarredavelmente, no centro da política externa brasileira. Por sua vez, o núcleo da política brasileira na América do Sul está no Mercosul. E o cerne da política brasileira no Mercosul tem de ser, sem dúvida, a Argentina. A integração entre o Brasil e a Argentina e seu papel decisivo na América do Sul deve ser o objetivo mais certo, mais constante, mais vigoroso das estratégias políticas e econômicas tanto do Brasil quanto da Argentina. Qualquer tentativa de estabelecer diferentes prioridades para a política externa brasileira, e mesmo a atenção insuficiente a esses fundamentos, certamente provocará graves conseqüências e correrá sério risco de fracasso.

2. A África Ocidental, com seus 23 Estados ribeirinhos, inclusive os arquipélagos de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, é a fronteira atlântica do Brasil, continente a que estamos unidos pela história, pelo sangue, pela cultura, pelo colonialismo e pela semelhança de desafios. A Ásia é o novo centro dinâmico da economia mundial, fonte de lucros inesgotáveis para as megaempresas ocidentais e destino de uma das maiores migrações de capital e tecnologia avançada da História. A Europa e a América do Norte são para o Brasil, como para qualquer ex-colônia e para eventuais pretendentes a colônia, as áreas tradicionais de vinculação política, econômica e cultural. Porém, por mais importantes que sejam, como aliás são, os vínculos e os interesses atuais e potenciais brasileiros com todas essas áreas e por melhores que sejam com os Estados que as integram as nossas relações, a política externa não poderá ser eficaz se não estiver ancorada na política brasileira na América do Sul. As características da situação geopolítica do Brasil, isto é, seu território, sua localização geográfica, sua população, suas fronteiras, sua economia, assim como a conjuntura e a estrutura do sistema mundial, tornam a prioridade sul-americana uma realidade essencial.

3 O cenário econômico mundial se caracteriza pela simultânea globalização e gradual formação de grandes blocos de Estados na Europa, na América do Norte e na Ásia; pelo acelerado progresso científico e tecnológico, em especial nas áreas da informática e da biotecnologia, com sua vinculação às despesas e atividades militares; pela concentração do capital e oligopolização de mercados, medida pelo número de fusões e aquisições que passaram de 9 mil, no valor de US$ 850 bilhões, em 1995, para 33 mil, no valor de quase 4 trilhões de dólares, em 2006, e pela financeirização da economia, pois os ativos (ações, títulos e depósitos) financeiros passaram de 109% da produção mundial, em 1980, para 316% em 2005; pela transformação dos mercados de trabalho e pela pressão permanente para reverter os direitos dos trabalhadores; pela acelerada degradação ambiental; pela insegurança energética e pelas migrações.

O cenário político mundial se caracteriza pela concentração de poder político, militar, econômico, tecnológico e ideológico nos países altamente desenvolvidos; pelo arbítrio e pela violência das Grandes Potências; pela ameaça real, e sua utilização oportunista, do terrorismo; pelo desrespeito aos princípios de não-intervenção e de autodeterminação de parte das Grandes Potências políticas, econômicas e militares; pelo individualismo dos Estados ricos e a insuficiente e cadente cooperação internacional; pela emergência da China, como potência econômica e política, regional e mundial.

4. Os Estados no centro do sistema mundial, cada vez mais ricos e poderosos, pois a diferença de renda entre Estados ricos e pobres passou de 1 para 4 em 1914 para 1 para 7 em 2000, porém vinculados às economias periféricas quanto a recursos estratégicos e mercados e com uma população cadente, procuram, por meio de negociações internacionais, definir normas e regimes que permitam preservar e até ampliar sua situação privilegiada no centro do sistema militar, político, econômico e tecnológico que é o resultado, por um lado, da II Guerra Mundial e dos regimes coloniais e, por outro lado, do êxito de seus esforços nacionais, em especial na esfera científica e tecnológica. Nesse processo, sua capacidade de articular ideologias e de apresentar “soluções” como benéficas a toda a “comunidade internacional” é extraordinária e importantíssima pois é a base de sua estratégia de arregimentação de Estados e de elites periféricas cooptadas para alcançar seus objetivos nacionais, vestidos com a capa de objetivos da humanidade.

5. Neste cenário violento e instável de grandes blocos, multipolar, há uma tendência a que países pequenos e até médios venham a ser absorvidos, mais ou menos formalmente, pelos grandes Estados e economias aos quais ou se encontram tradicionalmente vinculados por laços de origem colonial ou estão em sua esfera de influência histórica, como no caso da América Central; ou tenham feito parte de seu território, como no caso dos países que formam a Comunidade de Estados Independentes – CEI; ou se vinculam por laços étnicos e culturais, como no caso da diáspora chinesa na Ásia.

6. Os países médios que constituem a América do Sul se encontram diante do dilema ou de se unirem e assim formarem um grande bloco de 17 milhões de quilômetros quadrados e de 400 milhões de habitantes para defender seus interesses inalienáveis de aceleração do desenvolvimento econômico, de preservação de autonomia política e de identidade cultural, ou de serem absorvidos como simples periferias de outros grandes blocos, sem direito à participação efetiva na condução dos destinos econômicos e políticos desses blocos, os quais são definidos pelos países que se encontram em seu centro. A questão fundamental é que as características, a evolução histórica e os interesses dos Estados poderosos que se encontram no centro dos esquemas de integração são distintos daqueles dos países subdesenvolvidos que a eles se agregam através de tratados de livre comércio, ou que nome tenham, os quais ficam assim sujeitos às conseqüências das decisões estratégicas dos países centrais que podem ou não atender às suas necessidades históricas.

7. Os desafios sul-americanos diante desse dilema, que é decisivo, são enormes: superar os obstáculos que decorrem das grandes assimetrias que existem entre os países da região, sejam elas de natureza territorial, demográfica, de recursos naturais, de energia, de níveis de desenvolvimento político, cultural, agrícola, industrial e de serviços; enfrentar com persistência as enormes disparidades sociais que são semelhantes em todos esses países; realizar o extraordinário potencial econômico da região; dissolver os ressentimentos e as desconfianças históricas que dificultam sua integração.

8. As assimetrias territoriais são extraordinárias. Na América do Sul convivem países como o Brasil, com 8,5 milhões de quilômetros quadrados; como a Argentina, com seus 3,7 milhões de quilômetros quadrados e em seguida outros dez países, cada um com território inferior a 1,2 milhão de quilômetros quadrados. Três dos países da região se encontram voltados exclusivamente para o Pacífico, três se debruçam sobre o Oceano Atlântico, quatro são caribenhos e dois são mediterrâneos. O Brasil tem 15.735 km de fronteiras com nove Estados vizinhos, enquanto a Argentina, a Bolívia e o Peru têm fronteiras com cinco vizinhos. Devido a essas circunstâncias geográficas, os pontos de vista geopolíticos de cada país são inicialmente distintos, o que se agrava pelo fato de até recentemente – e mesmo até hoje – terem estado separados os países da região pela Cordilheira, pela floresta, pelas distâncias e pelos imensos vazios demográficos.

9. O Brasil tem 190 milhões de habitantes, que correspondem a cerca de 50% da população da América do Sul, enquanto o segundo maior país em população, que é a Colômbia, tem 46 milhões de habitantes e o terceiro, a Argentina, tem 39 milhões. As taxas de crescimento demográfico variam de 3% no Paraguai a 0,7 % no Uruguai. A América do Sul viveu nos últimos anos um processo acelerado de urbanização, com o surgimento de megalópoles que concentram grandes parcelas da população total de cada país, e que exibem periferias paupérrimas e violentas. Há significativas populações de deslocados internos no Peru, como conseqüência da luta feroz contra a insurreição do Sendero Luminoso, e de refugiados, como no caso de colombianos na Venezuela e no Equador. No passado, as ditaduras e os regimes militares provocaram o exílio de numerosos militantes políticos, intelectuais, operários e sindicalistas, com grave prejuízo para o desenvolvimento político dos países mais afetados.

Ademais, durante algumas décadas o reduzido ritmo de crescimento econômico provocou movimentos migratórios significativos dos países da região em direção aos Estados Unidos e à Europa Ocidental. Há um milhão de uruguaios vivendo fora do Uruguai enquanto três milhões se encontram no país. Há 400 mil equatorianos na Espanha e 4 milhões de brasileiros no exterior. Ao mesmo tempo, há grandes espaços despovoados na América do Sul, onde a densidade demográfica é inferior a 1 habitante por quilômetro quadrado, enquanto nas megalópoles a densidade populacional atinge mais de 10.000 habitantes por quilômetro quadrado.

A América do Sul exibe índices de concentração de renda e de riqueza, de pobreza e de indigência, de opulência e luxo, contrastes espantosos entre riquíssimas mansões e palafitas miseráveis, entre excelentes hospitais privados e hospitais públicos decadentes, entre escolas de Primeiro Mundo e pardieiros escolares. Todavia, conta a América do Sul com as vantagens da ausência de conflitos raciais agudos, ainda que ocorra discriminação racial; com a presença dominante de idiomas de comum origem ibérica, ainda que em alguns países existam idiomas indígenas que conseguiram sobreviver; com a ausência de conflitos religiosos e predominância católica ao lado da rápida expansão das igrejas protestantes; com uma população grande, mas que não é excessiva, como em certos países asiáticos. O desafio que representa a emergência das populações indígenas historicamente oprimidas e seus efeitos para as relações políticas entre os países da América do Sul vão exigir, todavia, especial atenção e habilidade.

10. A América do Sul é uma região extremamente rica em recursos naturais, que se encontram distribuídos de forma muito desigual entre os diversos países. Enquanto o Brasil tem as maiores reservas mundiais de minério de ferro de excelente teor, a Argentina não as tem em volume suficiente. A Argentina dispõe de terras aráveis de extraordinária fertilidade, em contraste com o Chile. A Colômbia possui grandes reservas de carvão de boa qualidade e o Brasil as tem poucas e pobres. A Venezuela tem a sexta maior reserva de petróleo e a nona maior reserva de gás do mundo enquanto que, em todos os países do Cone Sul, inclusive no Brasil, são elas insuficientes para sustentar o ritmo de desenvolvimento, talvez de 7% a/a, necessário à absorção produtiva dos estoques históricos de mão-de-obra desempregada e subempregada e dos que chegam anualmente ao mercado. A Bolívia detém jazidas de gás que correspondem a duas vezes as brasileiras, mas tem sérias dificuldades para ampliar sua exploração. O Chile explora as maiores reservas conhecidas de minério de cobre do mundo, responsável por 40 % de suas exportações. O Paraguai ostenta um dos maiores potenciais hidrelétricos do mundo, em especial quando calculado em termos per capita, mas ainda não teve êxito em utilizá-lo para acelerar seu desenvolvimento. O Suriname tem a maior reserva de bauxita do planeta, ainda pouco explorada.

11. Encontra-se na América do Sul a maior floresta tropical do mundo, um tema central no debate político sobre o efeito estufa e suas conseqüências para o clima, e o maior estoque de biodiversidade do planeta, o qual é de grande importância para a renovação da agricultura e para a indústria farmacêutica; uma parcela importante das reservas de água doce do planeta, recurso cada vez mais estratégico e causa já de conflitos em certas regiões do globo, e o maior lençol de águas subterrâneas, o Aqüífero Guarani, que subjaz os territórios do Brasil, do Paraguai, da Argentina e do Uruguai.

As políticas econômicas
12. Os choques do petróleo ( 1973 e 1979), o endividamento excessivo e o súbito aumento das dívidas externas acarretaram crises e estagnação econômica que contribuíram para o fim dos regimes militares na América do Sul, em meados da década de 80. A vitória do neoliberalismo monetarista nos Estados Unidos e Reino Unido, a partir de Ronald Reagan (1981-1989) e Margaret Thatcher (1979-1990), e a renegociação da dívida externa (Plano Brady) forçaram aos países subdesenvolvidos a adoção de políticas de abertura comercial e financeira, desregulamentação e privatização, com base nos princípios do chamado Consenso de Washington. Essas políticas levaram a resultados desastrosos em países que nelas se envolveram mais a fundo, como foram o caso do Equador, da Bolívia e da Argentina, e deixaram seqüelas importantes em países como o Brasil, o Uruguai e a Venezuela.

13. Tais políticas neoliberais agravaram a já elevada concentração de renda e de riqueza, ampliaram o desemprego, contribuíram para a violência urbana, provocaram a fragilização do Estado e dos serviços públicos, o que levou por sua vez à gradual emergência de importantes movimentos políticos e sociais que passaram a preconizar (explícita ou implicitamente) a revisão do modelo econômico e social neoliberal.

14. Os países da América do Sul, em conseqüência das políticas neoliberais que determinaram a redução negociada e às vezes até unilateral de suas tarifas aduaneiras, a privatização de suas empresas estatais e a liberalização de seus mercados de capital, aumentaram suas importações de produtos industriais dos países desenvolvidos e o ingresso descontrolado de capitais estrangeiros. Essas políticas levaram à desindustrialização em maior ou menor grau, à maior influência do capital multinacional e à desnacionalização de importantes setores de suas economias, em especial do setor financeiro, com efeitos econômicos, e inclusive políticos, significativos.

15. Essa maior integração, porém de natureza passiva, dos países sul-americanos na economia mundial é radicalmente distinta da integração na economia global que ocorre com os países altamente desenvolvidos ou com certos países emergentes, como a Coréia. Nesses últimos casos, essa maior integração se verifica através da internacionalização das atividades de suas grandes empresas de atuação multinacional mas de capital nacional, bem como de suas exportações de alto conteúdo tecnológico enquanto que, no caso dos países sul-americanos, se verifica através da maior participação de megaempresas multinacionais em suas economias, já que não possuem esses últimos países (com raras exceções) grandes empresas capazes de se internacionalizarem, e da expansão de suas exportações de “commodities”.

16. Em decorrência, os países da América do Sul retomaram, voluntária ou involuntariamente, sua especialização histórica na exportação de produtos primários, tradicionais ou novos, com maior grau, por vezes, de elaboração, para atender à demanda dos países altamente desenvolvidos e da China. Assim, grosso modo, sua agricultura se sofisticou e passou a ser denominada de agribusiness; sua indústria foi adquirida ou cerrou suas portas em um processo de desindustrialização/desnacionalização e muitas de suas empresas de serviços, em especial as empresas modernas e aquelas do setor financeiro, foram adquiridas por megaempresas multinacionais.

17. A capacidade de utilizar tradicionais instrumentos de promoção do desenvolvimento econômico, que aliás tinham sido amplamente usados pelos países hoje desenvolvidos no início de seu processo de desenvolvimento (i.e. de seu processo de industrialização), foi abandonada pelos países da América do Sul na Rodada Uruguai, quando aceitaram normas sobre disciplina do capital estrangeiro as quais proíbem políticas tais como a nacionalização de insumos, o estabelecimento de metas de exportação e o reinvestimento de parte dos lucros; ou que estabelecem normas sobre propriedade intelectual que ampliaram os prazos de patentes e estabelecem patentes sobre fármacos, dificultando de fato o desenvolvimento tecnológico e gerando enormes remessas financeiras. Este abandono dos instrumentos econômicos tradicionais de uso do Estado, assim como a confiança excessiva desses países no livre jogo das forças de mercado contribuíram para que viessem a ter seu ritmo de crescimento reduzido ou estagnado. Por outro lado, a derrocada ideológica do Welfare State nos países desenvolvidos fez com que os países sul-americanos também contraíssem ou desarticulassem os seus programas sociais, o que contribuiu para agravar a concentração de renda e de propriedade e para a pequena expansão de seu mercado interno.

18. Assim, em grande parte se explicam as baixas taxas de crescimento na América do Sul, das décadas de 80 e 90, quando comparadas às de alguns países da Ásia, e a eventual derrocada dos governos neoliberais na Argentina, no Brasil, no Chile, na Bolívia, no Equador e na Venezuela. Nos últimos anos, surgiram na América do Sul governos que procuram manter as políticas de austeridade fiscal e de controle inflacionário enquanto tentam ressuscitar o Estado como agente suplementar do desenvolvimento econômico e como agente de redução da desigualdade social, diante das enormes injustiças e das pressões dos segmentos historicamente oprimidos em suas sociedades.

O bloco sul-americano
19. A atual experiência de integração sul-americana tem distintas origens, motivações e paralelos históricos. Em primeiro lugar, o trauma da desintegração dos Vice-Reinados do Império espanhol a partir de 1810, a desintegração posterior da Grã Colômbia em 1830, e a sobrevivência da utopia de unidade latino-americana, preconizada pelo Libertador Simon Bolívar. Segundo, a tentativa do notável economista argentino, Raul Prebisch, de explicar as razões do desenvolvimento na América do Norte em confronto com o atraso sul-americano levou à formulação da teoria estruturalista pela Comissão Econômica para a América Latina – CEPAL.

Prebisch encontrou essas razões nas características das economias primário-exportadoras sul-americanas e na natureza de seu processo de incorporação do progresso tecnológico; na reduzida dimensão e no isolamento de cada mercado nacional; na deterioração secular dos termos de intercâmbio; na importância da industrialização como estratégia para a transformação econômica. Em terceiro lugar, a percepção de êxito da experiência de planejamento econômico e de industrialização acelerada vivida pela União Soviética, da experiência keynesiana e da planificação de guerra norte-americana e, finalmente, as políticas de economia mista e de planejamento indicativo dos governos socialistas europeus após a II Guerra Mundial. Quarto, na experiência de construção da Comunidade Econômica Européia, fundada na integração de mercados, na elaboração de políticas comuns e no financiamento pelos países mais ricos do esforço de redução de assimetrias entre as economias participantes.

20. Este conjunto de experiências inspirou os programas de desenvolvimento econômico com base na industrialização, em especial no Brasil durante o Governo Juscelino Kubitschek, as propostas da CEPAL de constituição de um mercado comum latino-americano, as propostas argentinas de criação de uma área de livre comércio que reunificasse economicamente as partes do antigo Vice-Reinado do Prata, e estimulou à constituição em 1960 da Associação Latino-Americana de Livre Comércio – ALALC.

21. Naturalmente, ao processo de integração da América do Sul e do Cone Sul subjazia a latente rivalidade entre Brasil e Argentina por influência política na região do Rio da Prata, os resquícios de um passado de lutas e a lembrança da inicial predominância industrial argentina. E outros ressentimentos decorrentes de conflitos e quase-conflitos passados, como entre Chile e Argentina; entre Bolívia, Chile e Peru; entre Peru e Equador; entre Colômbia e Venezuela, entre a Bolívia e o Paraguai, entre Brasil e Paraguai e entre Brasil e Bolívia.

22. A Associação Latino Americana de Livre Comércio, criada em 1960, e cuja meta era eliminar todas as barreiras ao comércio entre os Estados membros até 1980, encontrou obstáculos causados pelas políticas nacionais de substituição de importações e de industrialização e, mais tarde, pelas políticas de controle de importações para enfrentar as súbitas crises do petróleo que acarretaram inéditos déficits comerciais que atingiram os países importadores de energia, em especial o Brasil.

23. A partir de 1965, o Convênio de Créditos Recíprocos (CCR) entre os países da ALALC, e mais a República Dominicana, passa a permitir o comércio sem o uso imediato de divisas fortes, através de um sistema quadrimestral de compensação multilateral de créditos que funcionou com grande êxito sem que ocorresse nenhum caso de “default” até a década de 1980, quando foi progressivamente desativado pelos novos tecnocratas que vieram a ocupar os Bancos Centrais dos países da região, na esteira do período de governos neoliberais.

24. Em 1969, os países andinos celebraram o Pacto Andino (mais tarde CAN) como um projeto mais audacioso de integração e de planejamento do desenvolvimento, prevendo inclusive a alocação espacial de indústrias entre os Estados membros e a elaboração de políticas comuns, inclusive no campo do investimento estrangeiro.

25. Em 1980, a estagnação das negociações comerciais levou à substituição da ALALC pela Associação Latino Americana de Integração (ALADI). O Tratado de Montevidéu (80) incorporou o “patrimônio” de reduções tarifárias bilaterais, permitiu a negociação de acordos bilaterais de preferências, com a perspectiva de sua eventual convergência, e tornou possível a concessão de preferências bilaterais ao abrigo da “enabling clause” do então GATT.

26. Em 1985, Brasil e Argentina decidiram lançar um processo de integração bilateral gradual, com o objetivo central de promover o desenvolvimento econômico, a que se juntaram, em 1991, Paraguai e Uruguai, formando-se assim o Mercosul. Este último surgiu como um projeto enquadrado na concepção do Consenso de Washington do livre comércio como instrumento único e suficiente para a promoção do desenvolvimento, redução das desigualdades sociais e geração de empregos, na melhor tradição das Escolas de Manchester e de Chicago.

27. Após a conclusão do NAFTA em 1994, em que o México na prática abandonou a ALADI, os Estados Unidos, no contexto da Cúpula das Américas, lançaram um projeto ambicioso de negociação de uma Área de Livre Comércio das Américas (ALCA). Esse projeto, na realidade, mais do que uma área de livre comércio de bens, criaria um território econômico único nas Américas, com a livre movimentação de bens, serviços e capital (mas não de mão-de-obra ou tecnologia) e estabeleceria regras uniformes ainda mais restritivas à execução de políticas nacionais ou regionais de desenvolvimento econômico, já que as propostas originais eram OMC-Plus e NAFTA-plus (e parecem continuar a ser tais como revelam os textos dos tratados bilaterais de livre comércio, celebrados pelos Estados Unidos).

28. Apesar das declarações diplomáticas feitas na ocasião, e reiteradas posteriormente, de que a ALCA não afetaria os projetos de integração regional como a Comunidade Andina e o Mercosul, estava claro que a eventual concretização da ALCA eliminaria de fato a possibilidade de formação de um bloco econômico e político sul-americano.

29. Após o início das negociações da ALCA, e diante da extrema desigualdade de forças políticas e econômicas entre os países participantes, a negociação se interrompeu em 2004, após os Estados Unidos terem retirado os temas agrícolas e de defesa comercial (antidumping e subsídios) levando-os para o âmbito da OMC sob o pretexto de ser necessária uma negociação mais abrangente, inclusive com a União Européia. Em conseqüência e para equilibrar as negociações, o Mercosul considerou que os temas de investimento, compras governamentais e serviços deveriam também passar para o âmbito da Rodada de Doha na OMC e propôs aos Estados Unidos a negociação de um acordo do tipo 4+1, no campo do comércio de bens, proposta até hoje sem resposta, ou melhor, cuja resposta prática tem sido a firme atividade norte-americana de negociação de acordos bilaterais de livre comércio (na realidade com escopos muito mais amplos) com os países da América Central, a Colômbia, o Peru e (quase) com o Equador.

30. Paralelamente, o Mercosul empreendeu a negociação e celebrou acordos de livre comércio com o Chile (1995), com a Bolívia (1996), com a Venezuela, Equador e Colômbia (2004), e com o Peru (2005), que se referem exclusivamente ao comércio de bens e não incluem o comércio de serviços, compras governamentais, regras sobre investimentos, propriedade intelectual, etc.

31. Em 2002, o Congresso dos Estados Unidos tinha aprovado o ATPDEA (Andean Trade Promotion and Drug Eradication Act) pelo qual concederiam unilateralmente preferências comerciais, sem reciprocidade de parte dos beneficiários, para listas de produtos de países andinos em troca da execução de programas de erradicação das plantações de coca. O resultado da aplicação durante cinco anos dessa lei foi, de um lado, expandir as exportações de tais produtos desses países para os Estados Unidos e, de outro, ensejar o surgimento nesses países de grupos de interesses empresariais locais favoráveis à negociação de acordos de livre comércio com os Estados Unidos quando se encerrasse o prazo de vigência daquele Ato.

32. Posteriormente, foi lançada em 2004, em Cuzco, o projeto de formação de uma Comunidade Sul-Americana de Nações, hoje denominada UNASUL, organização que se pretenderia semelhante à União Africana, na África; à União Européia na Europa; à ASEAN, na Ásia; e ao MCCA, na América Central. As negociações para concretizar a UNASUL têm encontrado três distintas resistências: primeiro, a de países que celebraram acordos de livre comércio com os Estados Unidos; segundo, a de países que dão prioridade ao fortalecimento do Mercosul e que acreditam que o Brasil estaria “trocando” o Mercosul pela UNASUL; terceiro, a de países que consideram ser necessário uma organização mais audaciosa, com base na solidariedade e na cooperação e não naquilo que consideram ser o individualismo “mercantilista” das preferências comerciais, dos projetos de investimento e do livre comércio.

A Argentina e a estratégia de integração brasileira
33. Não há a menor possibilidade de construção de um espaço econômico e político sul-americano (economicista ou solidarista, não importa) sem um amplo programa de construção e de integração da infra-estrutura de transportes, de energia e de comunicações dos países da América do Sul. O comércio entre os seis países fundadores da Comunidade Econômica Européia correspondia em 1958 a cerca de 40% do seu comércio total e hoje supera 80%. Em contraste, o comércio entre os países da América do Sul correspondia em 1960, data de começo da ALALC, a cerca de 10% e ainda em 2006 não superou 17% do total do comércio exterior da região. Esse reduzido comércio tinha sua causa na pequena diversificação industrial das economias sul-americanas (hoje também um obstáculo, pois quanto mais diversificadas as economias maior o seu comércio recíproco), mas também na pequena densidade dos sistemas de transportes naquela época e até hoje. Há um interesse vital em conectar os sistemas de transportes nacionais e as duas costas do subcontinente, superando os obstáculos da Floresta e da Cordilheira, como se está fazendo ao norte entre Brasil e Peru, e se procurará fazer ao sul, entre Brasil, Argentina e Chile. A Iniciativa para a Integração da Regional Sul-Americana (IIRSA), em 2000, foi um passo de grande importância neste esforço de planejamento, que necessita para se concretizar da alavanca regional do financiamento.

34. Uma das maiores dificuldades dos países da América do Sul é o acesso a crédito para investimentos em infra-estrutura devido a limites ao endividamento externo e à falta de acesso a instrumentos de garantia. Este acesso ao mercado internacional de capitais é tanto mais importante quanto maior for a dificuldade desses países em elevar sua poupança interna, devido à prioridade concedida ao serviço da dívida interna e externa. O Brasil tem contribuído para o fortalecimento da Cooperação Andina de Fomento – CAF, entidade financeira classificada como AA no mercado internacional e voltada para investimentos em infra-estrutura, e tem participado, de forma positiva e prudente, do processo de construção de um Banco do Sul que se deseja eficiente.

O Brasil é um dos poucos, senão o único país da região, que dispõe de um forte banco de desenvolvimento, cujos ativos são de US$ 87 bilhões, maiores que os do Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID ( US 66 bilhões), que pode emprestar recursos para a execução de obras de infra-estrutura em condições competitivas com as do mercado internacional e sem condicionar tais empréstimos a “compromissos” de política externa ou à execução de “reformas” econômicas internas. É parte essencial da estratégia brasileira de integração fornecer crédito aos países vizinhos para a execução de obras de infra-estrutura e, no futuro, vir a fornecer créditos a empresas desses países em condições normais semelhantes às que se exigem de empresas brasileiras, tendo em vista o interesse vital brasileiro no crescimento e no desenvolvimento dos países vizinhos até mesmo por razões de interesse próprio, devido à grande importância de seus mercados para as exportações brasileiras e, em conseqüência, para o nível de atividade econômica geral e de suas empresas.

35. Além da integração da infra-estrutura física em termos de rodovias, pontes, ferrovias e de energia é essencial a integração das comunicações aéreas, pela sua importância para a economia e a política, assim como da mídia em especial a televisão, essencial à formação do imaginário sul-americano, através do conhecimento da vida política, econômica e social dos países da região, hoje desconhecida do grande público e, portanto, fonte de toda sorte de preconceitos e manipulações que envenenam a opinião pública e afetam os discursos, as atividades e as decisões políticas. A TV Brasil – Canal Integración e a TELESUR são experiências não-hegemônicas de integração de comunicações, assim como a iniciativa brasileira de procurar estabelecer um padrão regional de TV Digital, com a participação dos Estados do Mercosul, inclusive no processo industrial.

36. A questão da segurança energética é central nos dias de hoje e no futuro previsível. A integração energética e a autonomia regional em energia para garantir a segurança de abastecimento energético é prioridade absoluta da política externa brasileira na América do Sul. Não há possibilidade de crescer a 7% a/a na média durante um período longo sem um suprimento suficiente, seguro e crescente de energia. Este suprimento depende de investimentos de prazo mais ou menos longo de maturação, tais como a prospecção de jazidas de petróleo, gás e urânio, a construção de barragens, a construção de usinas hidro e termoelétricas, assim como nucleares . A América do Sul, como região, tem um excedente global de energia, porém com grandes superávites atuais e potenciais em certos países e com severos déficits em outros. No primeiro caso, se encontram a Venezuela, o Equador e a Bolívia para o gás e o petróleo. No caso de energia hidrelétrica, há excedentes extraordinários no Brasil, no Paraguai e na Venezuela. De outro lado, se encontram países com déficit estrutural de energia como o Chile e o Uruguai e casos intermediários como são o Peru, a Colômbia e a Argentina.

Assim, a integração energética da região permitirá reduzir as importações extra-regionais e fortalecer a economia da América do Sul. No esforço de fortalecer e de integrar o sistema energético da região, o Brasil tem financiado a construção de gasodutos na Argentina e tem se empenhado na concretização do projeto do Grande Gasoduto do Sul que deverá vincular os maiores centros produtores de energia (a Venezuela e a Bolívia) aos maiores mercados consumidores (o Brasil, a Argentina e o Chile). O Brasil está disposto a compartilhar a tecnologia que desenvolveu na área dos biocombustíveis, acreditando que a crise energética e ambiental somente poderá ser enfrentada com eficiência a partir de uma modificação gradual da matriz energética mundial, de uma redução do consumo e do desperdício nos países altamente desenvolvidos, principais responsáveis pela emissão de gases de efeito estufa.

37. A redução das assimetrias é o segundo elemento essencial da estratégia brasileira de integração. Em um processo de integração em que as assimetrias entre as partes são significativas tornam-se indispensáveis programas específicos e ambiciosos para promover sua redução. É óbvio que não se trata aqui das assimetrias de território e de população mas sim daquelas assimetrias de natureza econômica e social. É indispensável a existência de um processo de transferência de renda sob a forma de investimentos entre os Estados participantes do esquema de integração como ocorreu e ocorre ainda hoje na União Européia. Esse processo é ainda embrionário no Mercosul, sendo o Fundo para Convergência Estrutural e o Fortalecimento Institucional do Mercosul – FOCEM, apenas um modesto início.

38. A generosidade dos países maiores e mais desenvolvidos é sempre mencionada pelo Presidente Lula como um terceiro elemento essencial para o êxito do processo de integração do Mercosul e da América do Sul. Esta generosidade deve se traduzir pelo tratamento diferencial, sem exigência de reciprocidade, em relação a todos os países da América do Sul que estejam engajados no processo de integração regional, nas áreas do comércio de bens, de serviços, de compras governamentais, de propriedade intelectual etc. Isto é, o Brasil deve estar disposto a conceder tratamento mais vantajoso sem reciprocidade a todos os seus vizinhos, em especial àqueles de menor desenvolvimento relativo, aos países mediterrâneos e aos países de menor PIB per capita.

O Brasil, apesar de ser o maior país da região, não acredita ser possível desenvolver-se isoladamente sem que toda a região se desenvolva econômica e socialmente e se assegure razoável grau de estabilidade política e segurança. Assim, a solidariedade nos esforços de desenvolvimento e de integração é uma idéia central na estratégia brasileira na América do Sul, assim como a idéia de que este processo é um processo entre parceiros iguais e soberanos, sem hegemonias nem lideranças.

39. A integração econômica da América do Sul tem passado por um processo acelerado de expansão, impulsionado pela redução das tarifas propiciada pelos acordos comerciais preferenciais. O comércio de bens intra-América do Sul que era de 10 bilhões de dólares em 1980 passou para 68 bilhões em 2005. O comércio de serviços, que era praticamente inexistente na década de 1960, também se expandiu, ainda que em menor escala. Os exemplos mais relevantes de expansão poderiam ser dados pelo setor financeiro, com o estabelecimento de filiais de bancos, pelo setor dos transportes aéreos e mesmo terrestres, e pelo turismo intra-regional. Os investimentos de empresas da região em terceiros países da própria região se tornaram expressivos, como demonstra a expansão das empresas chilenas e brasileiras, em especial na Argentina.

Finalmente, houve considerável expansão das populações de imigrantes intra-regionais. Todos esses fatores contribuem para a formação de um mercado único sul-americano, já que, implementados os acordos comerciais bilaterais entre países da região, cerca de 95% do comércio intra-regional será livre de tarifas, em 2019. A reativação do CCR e o estabelecimento de uma moeda comum para transações entre Brasil e Argentina muito contribuirão para a expansão do comércio bilateral e regional.

40. A estratégia brasileira no campo comercial tem sido procurar consolidar o Mercosul e promover a formação de uma área de livre comércio na América do Sul, levando em devida conta as assimetrias entre os países da região . A compreensão brasileira com as necessidades de recuperação e fortalecimento industrial de seus vizinhos nos levou à negociação do Mecanismo de Adaptação Competitiva com a Argentina, aos esforços de estabelecimento de cadeias produtivas regionais e à execução do Programa de Substituição Competitiva de Importações, cujo objetivo é tentar contribuir para a redução dos extremos e crônicos déficits comerciais bilaterais, quase todos favoráveis ao Brasil.

No campo externo, a estratégia brasileira visa a ampliar os mercados para as exportações do Mercosul através da negociação de acordos de livre comércio ou de preferências comerciais com países desenvolvidos, como no caso da União Européia; e com países em desenvolvimento tais como a Índia e a África do Sul, em busca da abertura de mercados e visa a prestigiar e fortalecer o processo de negociação em conjunto, que não só favorece os parceiros maiores, mas também os parceiros menores do Mercosul, na medida em que obtêm eles condições de acesso que possivelmente não alcançariam caso negociassem isoladamente.

41. Em um sistema mundial cujo centro acumula cada vez mais poder econômico, político, militar, tecnológico e ideológico; em que cada vez mais aumenta o hiato entre os países desenvolvidos e subdesenvolvidos; em que o risco ambiental e energético se agrava; e em que este centro procura tecer uma rede de acordos e de normas internacionais que assegurem o gozo dos privilégios que os países centrais adquiriram no processo histórico e em que dessas negociações participam grandes blocos de países, a atuação individual, isolada, nessas negociações não é vantajosa, nem mesmo para um país com as dimensões de território, população e PIB que tem o Brasil. Assim, para o Brasil é de indispensável importância poder contar com os Estados vizinhos da América do Sul nas complexas negociações internacionais de que participa. Mas talvez ainda seja de maior importância para os Estados vizinhos a articulação de alianças entre si e com o Brasil para atuar com maior eficiência na defesa de seus interesses nessas negociações.

42. Apesar das assimetrias de toda ordem que caracterizam os países da região, somos todos subdesenvolvidos e as características centrais do subdesenvolvimento são as disparidades sociais, as vulnerabilidades externas e o potencial não-explorado de nossas sociedades. No caso das desigualdades sociais, a América do Sul se caracteriza como uma das regiões do mundo onde há a maior concentração de renda e de riqueza e onde há ativos enormes aplicados no exterior, resultado de “fugas” históricas de capital. Por outro lado, o Brasil tem procurado estabelecer programas de combate à fome e à pobreza, e de natureza social em geral, que podem ser objeto de útil intercâmbio de experiências. Uma das características da região é o crescente número de imigrantes ( legais e ilegais) de refugiados e de deslocados cuja situação necessita ser regularizada de forma solidária e humanitária, a exemplo do que têm feito a Argentina e a Venezuela.

O Brasil tem como prioridade a cooperação nas áreas de fronteira, cada vez mais vivas, a promoção de eliminação de vistos e de exigências burocráticas que dificultam a circulação de mão de obra e a negociação da concessão de direitos políticos aos cidadãos sul-americanos em todos os países da região, a começar pelo Brasil. A decisão brasileira de tornar obrigatório o espanhol no ensino médio no Brasil contribuirá para o processo de integração social e cultural da América do Sul.

43. No campo da política, os mecanismos de integração devem propiciar e estimular a cooperação entre os Estados sul-americanos nos foros, nas disputas e nas negociações internacionais, encorajar a solução pacífica de controvérsias, sem interferência de potências extra-regionais, o respeito absoluto e estrito aos princípios de não-intervenção e de autodeterminação, i.e. não deve nenhum Estado e muito menos o Brasil imiscuir-se nos processos domésticos dos países vizinhos nem procurar exportar modelos políticos por mais que os apreciemos para uso interno.

O Brasil tem, como princípio, manter-se sempre imparcial diante de disputas que surgem periodicamente entre países vizinhos, bastando lembrar a ressurreição da questão da mediterraneidade entre Bolívia, Chile e Peru; da fumigação na fronteira entre o Equador e Colômbia; das divergências ocasionais entre Colômbia e Venezuela; da questão das papeleiras entre Argentina e Uruguai. E o Brasil tem procurado tratar com generosidade e lucidez política, e não com o rigor do economicismo míope, apesar das resistências internas e dos preconceitos de setores conservadores da sociedade brasileira, as reivindicações econômicas, em relação ao Brasil, que fazem por vezes Bolívia, Paraguai e Uruguai. O Parlamento do Mercosul será o foro para o conhecimento mais íntimo dos políticos e dos estadistas dos países da América do Sul, contribuindo para o indispensável ambiente político a um processo de integração.

44. No processo de integração do Mercosul e da América do Sul e nas relações políticas com o mundo multipolar violento e “absorvedor” em que vivemos, Brasil e Argentina se encontram unidos pelos objetivos comuns de transformar o sistema internacional no sentido de que as normas que regem as relações entre os Estados e as economias sejam de tal natureza que os países em desenvolvimento como o Brasil e a Argentina preservem o espaço necessário para a elaboração e a execução de políticas de desenvolvimento que permitam superar as desigualdades, vencer as vulnerabilidades e realizar o potencial de suas sociedades.

45. No mundo arbitrário e violento em que vivem o Brasil, e a América do Sul, é indispensável ter forças armadas proporcionais a seu território e à sua população. A estratégia brasileira de defesa vê o continente sul –americano de forma integrada e considera a cooperação militar entre as Forças Armadas, inclusive em termos de indústria bélica, como um fator de estabilidade e de equilíbrio regional através da construção de confiança. A inexistência de bases estrangeiras no continente sul-americano, à exceção de Manta, é um importante fator político e militar para o desenvolvimento e a autonomia regional. Por outro lado, o Brasil rejeita qualquer intervenção política, e ainda mais militar, de origem extra-regional nos assuntos da América do Sul. Os programas de intercâmbio militar exercem importante papel no processo de construção da confiança, assim como a participação de efetivos militares de países da região em operações de paz das Nações Unidas, em especial na Minustah.

46. Finalmente, como mencionou o Ministro Celso Amorim, é necessário promover a integração e o desenvolvimento econômico e social de nossos países antes que o crime organizado o faça em suas diversas facetas: o narcotráfico, o contrabando, o tráfico de armas.

47. A integração entre o Brasil e a Argentina e seu papel decisivo na América do Sul deve ser o objetivo mais certo, mais constante, mais vigoroso das estratégias políticas e econômicas tanto do Brasil quanto da Argentina . Foram nossos dois países aqueles que, na região, lograram alcançar o mais elevado nível de desenvolvimento industrial, agrícola, de serviços, científico e tecnológico; aqueles que, considerados como um conjunto, detêm as terras mais férteis e o subsolo mais rico da região; aqueles cuja população permite o desenvolvimento de mercados internos significativos, base necessária para a atuação firme no mercado externo sempre sujeito às medidas arbitrárias do protecionismo agrícola e industrial; somos aqueles países que, por seu grande potencial e interesses comuns, são os mais capazes de resistir à voragem absorvedora dos interesses comerciais, econômicos, financeiros e políticos dos países mais desenvolvidos, sempre mais preocupados em concentrar poder e preservar privilégios econômicos e políticos, ainda que pela força, do que em contribuir para a construção de uma ordem econômica, ambiental e política necessária ao desenvolvimento da comunidade internacional como um todo e à preservação do planeta.

A coordenação política que ocorre entre a Argentina e o Brasil na defesa de seus interesses nos foros, nas negociações, nos conflitos e nas crises internacionais atingiu extraordinária intensidade e eficiência e foi isto que nos permitiu agir no âmbito do Conselho de Segurança, das negociações ambientais, das negociações hemisféricas desiguais e das negociações multilaterais econômicas da Rodada Doha, através do G-20, de modo a impedir o desequilíbrio de seus resultados e a garantir o espaço necessário às nossas políticas de desenvolvimento econômico.

48. Falta muito a fazer, em especial nos campos avançados do desenvolvimento científico e tecnológico que plasmarão a sociedade do futuro, tais como as atividades espaciais, aeronáuticas, nucleares, de defesa, de informática e de biotecnologia. É necessário e indispensável que todos os organismos da estrutura burocrática dos Estados brasileiro e argentino, ainda muitas vezes envolvidos em rivalidades, ressentimentos e desconfianças históricas, compreendam o desafio que a Nação argentina e a Nação brasileira enfrentam neste início do Século XXI, compreendam a visão estratégica dos presidentes Nestor Kirchner e Luiz Inácio Lula da Silva e contribuam, assim, para que se realize a faceta gloriosa da profecia de Juan Domingo Perón: “O Século XXI nos encontrará unidos ou dominados”.

* Samuel Pinheiro Guimarães é Secretário-Geral das Relações Exteriores do Brasil.

Categorias: Conjuntura regional

A lista da vergonha

06/03/2008 · Deixe um comentário

Listas e seus critérios, quais correspondem a realidade? Pois bem, de inúmeras listas, há uma que na minha opinião é a mais vergonhosa de todas, a lista das pessoas mais ricas do Mundo, no caso a da revista estadunidense Forbes. Primeiro porque é uma lista que pela própria natureza sabe-se estar errada, pois não é preciso muita imaginação para crer que os números que constam nela são camuflados, ou alguém conhece rico que paga imposto (ou seja, declara seus ganhos)?! Segundo porque é pura especulação, as riquesas são avaliadas conforme o valor das ações dos afortunados, mito da sociedade de mercado. Até um poste sabe que a diferença entre valores reais e especulativos é exorbitante, por exemplo o lastro (reserva monetária) dos EUA não chega a 10% dos recursos que o país opera, ou seja, especula. Outro exemplo é se um afortunado resolver vender tudo que tem, terá seus valores reduzidos consideravelmente pela lógica de mercado da oferta x demanda.

Mas a vergonha da lista está mesmo no acúmulo inescrupuloso de recursos humanos. O dinheiro não existe, é apenas uma abstração de vários fatores como poder de exploração (mais valia), especulação, entre outros. O que esses, e qualquer rico, possui de verdade é a falta de vergonha de explorar milhares de pessoas, ceifando vidas no caminho.

Ou, se não, vejamo que todos os supostos bilonários do Mundo (1.125 canalhas) são 0,00000017% da população Mundial (6,65 bilhões e contando…) e detêm 6% dos recursos financeiros mundiais… inúmeras comparações podem ser feitas, mas a que mais me enfurece é que esses canalhas reunidos detêm ao menos 800 bilhões a mais que toda a América do Sul! Tomemos nosso dinheiro, ou nossas vidas, de volta!

Iniciemos por rebatizar a lista, faço aqui algumas sugestões:

lista dos criminosos mais perigosos do Mundo;

lista dos maiores assassinos do Mundo;

lista da vergonha;

lista guia de puxa-sacos.

Façam as suas sugestões.

Fiquemos com as sábias palavras de Almeida Garrett:

“E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infância, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?”

Categorias: Conjuntura global

Entrevista com o jornalista Luis Nassif

06/03/2008 · Deixe um comentário

A democratização da mídia pela rede mundial também ocorre com severos ataques, saímos da defensiva e o Partido da Imprensa Golpista (PIG) repensa sua tática. Um bom exemplo disso é a excelente série jornalística do blogueiro Luis Nassif, intitulada Dossiê Veja. Abaixo entrevista do jornalista ao Portal Vermelho.

5 DE MARÇO DE 2008 – 17h31

Para Nassif, ‘Veja’ está num processo de deterioração moral

Por trás da escalada “neocon” da revista Veja, há uma trama que envolve dossiês falsos — “os planos Cohen da vida” —, lobbies com políticos e empresários, “assassinatos de reputações”, manipulações e outros desprezos à lei. Em entrevista ao Vermelho, Luis Nassif revela como e por que resolveu desmascarar a farsa, através do “dossiê Veja”, publicado em capítulos no blog Luis Nassif Online.

Por André Cintra e Priscila Lobregatte


Luis Nassif: dossiê anti-Veja

Diz a série: o conservadorismo da maior revista semanal do Brasil ganhou ainda mais ênfase com a ascensão de Eurípedes Alcântara e Mario Sabino aos cargos, respectivamente, de diretor de Redação e redator-chefe. Com eles no comando, também tiveram projeção o editor especial Lauro Jardim, da seção “Radar”, e o colunista Diogo Mainardi. Estava formado o “quarteto de Veja”, responsável — segundo Nassif — pelo “maior fenômeno de antijornalismo dos últimos anos”.

O dossiê conta os bastidores e as evidências desse processo. Mostra as relações promíscuas entre Eurípides e o banqueiro Daniel Dantas, o clima bélico injetado por Veja contra jornalistas de outros veículos, a campanha ostensiva e golpista contra o governo do presidente Lula, entre outros descalabros. A repercussão é estrondosa. Da página de Nassif na internet, a série já é reproduzida em mais de 800 blogs.

Para Nassif, enfrentar a Veja é lutar em defesa do jornalismo. Mas o dossiê só tem êxito, segundo ele, porque a internet começou a democratizar a comunicação no Brasil, permitindo denúncias de abusos, além de contrapontos fora da grande mídia. E Nassif acredita que uma outra entrevista sua ao Vermelho, concedida em 2006, às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, “foi a primeira que rompeu com essa cortina de silêncio”.

Você já escreveu um livro (O Jornalismo dos Anos 90) para tentar explicar mudanças paradigmáticas da imprensa na última década. Após as eleições 2006, soltou o artigo “A longa noite de São Bartolomeu”, que é quase um apêndice do livro, com um resumo e atualizações a respeito dessas transformações. O que houve nesse período? Como e por que a grande mídia mudou?
O livro terminava relativamente otimista. Eu achava que, com o avanço do discernimento por parte dos leitores, a imprensa seria mais seletiva e mais rigorosa na apuração de notícias. Mas nos anos 90 e nesta década entre 2000 e 2010, ao menos até agora, ocorreu uma confluência de fatores que piorou muito o ambiente midiático.

Tivemos, de um lado, a crise das empresas jornalísticas, que cometeram o que chamamos de ato de fraqueza como forma de não só saírem da crise como também de enfrentarem um outro cenário adverso que viria pela frente. Cederam à mídia internacional, com grandes grupos entrando e um novo padrão sendo introduzido — e nossos homens da mídia eram sempre acostumados com um ambiente fechado, sem uma visão estratégica para sobreviver num ambiente de competição.

Isso levou a um pacto de autodefesa entre esses grupos, porque eles precisariam fazer parcerias também com grandes investidores. É aí que aparece a figura dos banqueiros dos anos 90, alguns bem barra-pesada, que passam a ser uma das bóias de salvação da mídia. E aí você vende a alma. Quando você vende a alma e tem essa falta de critério jornalístico em algumas publicações, você dá tanto poder para seus diretores que eles saem do próprio controle da organização.

Nessa série da Veja que estou fazendo, há muitos episódios que não têm Abril no meio. A Abril perdeu o controle. A comparação que faria é a de uma empresa que usa o caixa 2 e sistemas não-formais para poder conseguir negócios — e que perde o controle de quem está fazendo as coisas. Na Veja, você tem matérias que são muito estranhas. Você olha e diz: que justificativa tem para isso? É a Abril que está pedindo isso? São os diretores?

Você está nos dizendo que a “hierarquia militar” da Abril foi violada? Ou o Roberto Civita (presidente da Editora Abril) poderia intervir e não interveio?
O Roberto Civita foi alvo, em momentos passados, de ataques pessoais pesados. E aí vem um pessoal pistoleiro de reputação e oferece a chance de fazer com eles o que antes fizeram com o Civita. E então ele libera esses mastins para sair atacando todo mundo. O que acontece? Ele não é um cara ideológico. Esse negócio de dizer que os sócios sul-africanos é que estão levando a essa posição da Veja é mentira. O Civita é um sujeito que se guia pelo mercado e que se baseia muito no que acontece nos Estados Unidos.

E nos Estados Unidos tem início esse movimento neocon, de agressividade na linguagem. Ele pensou: “Vamos trazer isso para cá”. E entregou essa função para as piores mãos possíveis — um pessoal jornalisticamente incompetente e inescrupuloso no trato da informação. Começaram a radicalização, a grosseria, os ataques contra todo mundo e os beneficiamentos pessoais. O que aconteceu com o livro do Mário Sabino? Ele usou todo o ferramental disponível inclusive para mudar critérios dos livros mais vendidos e, assim, se beneficiar. Isso aí não é coisa da Abril. É inacreditável um negócio desses.

Se essa série tivesse saído no ano passado, o que eles alegariam? São os inimigos políticos da Veja, são os chapas-brancas E atrás desse discurso, dessa blindagem, eles faziam tudo. A qualquer crítica que surgisse, eles diziam: “Ah, são os chapas-brancas”. O Diogo Mainardi foi usado pelo Mário Sabino, é um doente. Foi utilizado para isso: se alguém chegar perto, cria a marca “é da equipe do governo”, “é chapa-branca”. Com isso, você libera a direção para fazer o que desse na telha.

Foi o que fizeram com o Franklin Martins, com a Tereza Cruvinel…
Você pega o Franklin Martins. Eles conseguiram jogar nos braços do governo o melhor jornalista político do país: “Ah, agora está provado que o Franklin era governista”. Provado coisa nenhuma! O Franklin ficou fora do mercado e foi trabalhar no governo. A Tereza Cruvinel era uma das melhores colunistas que havia. Começaram com esses ataques baixos, desqualificadores, e ela foi trabalhar no governo.

A questão toda não é somente os ataques, mas a maneira como os jornais reagiram a isso. No Globo, o (diretor-executivo de jornalismo) Ali Kamel fechou com eles. O que o Ali Kamel fez com o Franklin quando foi atacado? Rompeu contrato com ele. Isso foi uma deslealdade que intimidou todos os demais colunistas do O Globo. Na Folha, o Otavinho (Otávio Frias Filho, diretor de Redação) não saiu em defesa quando seus colunistas foram atacados. Não digo nem a mim — mas ao Kennedy Alencar, ao Marcelo Coelho e a outros.

Isso criou uma insegurança geral nos colunistas. Nos anos 90, havia diversidade jornalística dada por eles. Quando se cria essa guerra e essa unanimidade para derrubar o Lula — e se permite que os seus jornalistas sejam atacados —, você induz todos eles a fazerem discurso único por uma questão de sobrevivência profissional. Eu pulei fora.

Nos anos 50, havia um jornalismo bastante carregado de opiniões. Isso voltou tal como era antes ou você vê diferenças?
Voltou com tudo, inclusive com os planos Cohen da vida. Toda aquela manipulação, inclusive dossiês falsos, passou a ser usada. Isso é uma loucura! Estamos na era da internet, da comunicação, e a Veja passa a usar dossiês falsos, passa a misturar a notícia com fantasia.

Aquele negócio de dólares de Cuba é um exemplo. A qualidade da notícia deveria ser melhor até por uma questão de cautela. Se hoje não há mais aquele controle da informação que se tinha antes, você não pode se dar à imprudência de sair inventando história, porque vai ser desmascarado.

Há um capítulo do dossiê em que você diz que, a cada sucessão no comando da Veja, entram jornalistas cada vez mais desqualificados e incompetentes…
É. A Veja está num processo de deterioração moral. Recebo vários e-mails de jornalistas que trabalharam lá, e há um que fala que, a cada edição, morria de medo de involuntariamente fuzilar alguma reputação. Porque eles pegam as matérias e alteram tudo.

Existem vários exemplos de jornalistas que faziam parte de um grande veículo e que, agora, têm seus sites e blogs, estão “nadando contra a corrente”. Temos o Paulo Henrique Amorim e o Luiz Carlos Azenha, que eram da Globo. Há você, que saiu da Folha. A internet virou uma válvula de escape?
Vou falar da minha experiência. Na Folha, sempre procurei jogar no contrafluxo. Um exemplo foi a Escola Base. Esse negócio de não seguir a manada, para mim, sempre foi um oxigênio. Qualquer forma de restrição ao pensamento, para mim, é um terror. E a restrição ao pensamento pode vir da empresa, pode vir do governo ou pode vir do leitor.

Ao longo dos anos 90, um grande fator de restrição à imprensa foram essas pesquisas de opinião. Os jornais criavam um escândalo, o leitor queria mais daquele escândalo, e o jornal ficava prisioneiro daquela opinião do leitor que ele mesmo tinha criado. Era um círculo vicioso.

O que aconteceu nos últimos anos foi que você não podia mais jogar no contrafluxo por conta dessa frente que se formou contra o governo. Uma das características do jornalismo é que a capacidade que você tem de fazer um elogio é que te garante credibilidade e a eficiência quando você faz a crítica. Se for sistematicamente a favor ou sistematicamente contra, não se faz jornalismo.

Só que quando, começou aquela campanha maluca contra o Lula, você tinha que ficar sistematicamente contra. Tinha denúncia verdadeira? Tinha. Mas também havia denúncias falsas. O jornalismo coerente tinha que separar o falso do verdadeiro. Só que o patrulhamento foi um negócio tão intenso — e essa frente da mídia foi tão emburrecedora — que acabou essa diferenciação.

Quando fomos para a internet, o público que estava lá era o público dos jornais. Mas a internet também é uma armadilha; você tem que tomar cuidado para não ficar prisioneiro dela também. Meu público é 80% a favor do Lula. Mas, se você cede a esse público, você perde a liberdade.

Que pressões você sofreu na Folha?
Ali foram desgastes internos, que já vinha há algum tempo. Quando entrou a “guerra santa” e eu comecei a fazer o contraponto, gerei insatisfação e não teve jeito.

Existe na blogosfera um “ativismo jornalístico” cujos principais nomes seriam o seu, o do Paulo Henrique Amorim?
Isso aí é malandragem desse pessoal da Veja. Quando a Veja resolveu montar a blindagem para a revista, o álibi encontrado contra as críticas foi dizer que se formou uma frente contra ela. Quando comecei minha série, o Paulo Henrique ligou me apoiando. E eu falei: “Não me apóia”. Daí, quando eu lancei o primeiro capítulo, ele fez um carnaval lá, e eu publiquei uma coluna até deselegante com ele, mas não tive outro jeito. Falei que não tenho nada a ver com Paulo Henrique — só para deixar bem claro que não havia essa ligação.

Você pega esses blogs da Veja e tem lá: “Porque o iG tem o Paulo Henrique, o Mino, o Nassif…”. Isso é malandragem. Qualquer crítica que você faz, eles dizem: “Você está fazendo a crítica porque existe uma frente”. Então a maior precaução que eu tomei quando comecei a escrever foi deixar bem claro que não havia essa ligação.Trabalhei com o Paulo Henrique há alguns anos e, nos últimos dois ou três anos, encontrei com ele em uma ou outra palestra. Não tenho intimidade com ele, nem ele comigo. Fazemos tipos diferentes de jornalismo. Esse negócio de frente foi malandragem da Veja.

A discussão que quero ter é jornalística. A Veja tem o direito de ser de direita ou de esquerda — quem define é o dono. Não tenho a pretensão de achar que tenha que haver uma assembléia de jornalistas definindo isso. O jornalista, quando quer ter opinião, vem para a internet. Minha crítica é que a Veja não obedeceu aos princípios jornalísticos. Manipulou, jogou, assassinou reputações, atropelou a lei.

Quando foi entrevistado por nós, em outubro de 2006, você já dava indícios de que havia esses problemas na Veja, mas apenas passava de raspão. Falava nos superpoderes do Eurípedes, comentou também da relação entre a revista e o Daniel Dantas. Por que você resolveu abrir a tampa e ir a fundo só agora, chegando ao dossiê?
Olha, eu teria assunto para mais uns 15 dossiês, se eu tivesse tempo. O meu método de trabalho é um pouco diferente do da Veja. Quando, lá atrás, sofri o ataque da Veja, fui procurar entender o que estava por trás daquilo. Estava na cara que era o Mainardi atuando na defesa do Daniel Dantas, mas não estavam claras as ligações e quem era quem no jogo. Passei esse período todo tentando entender.

Depois que você coloca as peças no lugar, basta pegar todas as matérias que estão lá e ir encaixando. Há uns oito meses, comecei a dar uns cutucões na Veja e o blog desse rapaz ficou oito meses me atacando, dizendo que eu era ladrão. Dizia coisas inacreditáveis. Sabe aquela coisa de você encontrar o cara de madrugada, bêbado, e ele vem xingar sua mãe, seu pai (risos). Depois que você fecha a lógica, é só encaixar as matérias.

Você levanta quatro nomes à frente dessa linha na Veja – Eurípedes, Sabino, Jardim e Mainardi. Por que o Reinaldo Azevedo, outro radical, não entra nessa lista?
O Azevedo é menor. Você tem o Mário Sabino, certo? E o Reinaldo Azevedo é um Sabininho. Pegue o último capítulo da série que foi publicado, sobre os livros — que tem o Azevedo escrevendo resenha. Aquilo lá é só Sabino. Você pega o texto do Azevedo, pega um professor de literatura, e compara. São as impressões e as marcas do Sabino.

O que o Mario Sabino faz na Veja? Ele tem dois ou três ali que ele usa para atacar: o Sérgio Martins, o Jerônimo Teixeira, por exemplo. Ele altera os textos deles. No caso do Reinaldo, o Sabino dá o texto pronto. O Reinaldo é apenas uma caricatura. E isso é importante porque, sendo uma caricatura, ele deixa mais à mostra o que é esse jogo. Outro dia, ele escreveu sobre o Obama (Barack Obama, pré-candidato do Partido Democrata à Presidência dos Estados Unidos), descendo o cacete, e de repente a Veja sai com uma visão diferente. Ele entrou em pânico, porque ele não representa nada. Como caricatura, todos os defeitos da Veja ficam mais evidentes com ele. Mas ele é apenas um Sabininho.

E quem é Daniel Dantas? Como ele aparece na história?
Nos anos 90, você teve o avanço dessas colunas de negócios, que passaram a ser utilizadas como ferramentas de lobbies empresariais. Não estou generalizando. Isso começa a ficar muito pesado mesmo nos anos 90, e esses lobistas maiores passam a recorrer aos serviços de assessorias de imprensa barras-pesadas. Com o tempo, eles passam a entrar direto com seus jornalistas. A IstoÉ é um caso clássico de uso de jornalistas para jogadas comerciais. Só que quando se chega na maior revista do país, quando se atinge e coopta o seu centro, aí é demais.

O Daniel Dantas é o maior exemplo de como degringolou política no país. No dia em que ele contar suas histórias, não sobrarão grandes próceres tucanos e não sobrarão grandes figuras petistas também, nem jornalistas expressivos, Poder Judiciário. Ele conseguiu montar uma rede de influência inacreditável. Nos Estados Unidos, talvez no século passado houve esses abusos — mas a sociedade americana criou formas de autodefesa. Aqui não. Aqui se fecha em torno dos novos homens do dinheiro. Esse é um grande mal que o Fernando Henrique deixou para o país, um mal que vai ter — aliás, já está tendo — desdobramentos terríveis. E com a mídia se dispondo a fechar com eles, você tem uma parte relevante dos poderes institucionais que vão pro vinagre.

A mídia é muito poderosa, cria mitos inacreditáveis. O Mainardi é um exemplo. Começou-se a criar um mito de que ele seria o novo Paulo Francis. Mas quando você vê as coisas que ele escreve… E não estou entrando em juízo de valor, mas em juízo de qualidade. De repente, você o transforma num personagem. E, nesses grupos de autodefesa, você tem o Sabino elogiando o Ali Kamel, que elogia o Mainardi, etc. Ou seja, cria-se dentro da imprensa um negócio fora das estruturas de controle dos jornais, grupos de autopromoção que são uma coisa mafiosa. Destrói-se pessoa que não seja do grupo e passa-se a tentar criar reputações intelectuais.

Foi o que o Sabino faz na Veja, com essas manipulações com relação ao livro dele. Ele escreve e assina sobre o Otavinho, sobre o Ali Kamel. Mas, na hora de tentar destruir o Davi Arrigucci, o Silviano Santiago (críticos literários e professores acadêmicos), ele coloca outros para assinar. Tentaram destruir o (também crítico José Miguel) Wisnik, o Santiago, o Arrigucci. E quem são as novas personalidades intelectuais que surgem? Ali Kamel, Mário Sabino, Mainardi. É inacreditável! Mainardi! Duas das maiores organizações do país — Abril e Globo — passaram a ser manipuladas por três ou quatro pessoas, criando esses mitos. É uma loucura.

Então você tinha uma clara dimensão de onde estava se metendo quando iniciou o dossiê?
Quando entrei, me preparei para o pior. Vamos pegar um exemplo. Há oito meses, esse rapaz (Reinaldo Azevedo) me ataca. Há oito meses, o Reinaldo escrevia baixaria contra os professores da USP. Dava no Jornal Nacional e dava na Veja. Aí percebi que, quando começasse a série, eles usariam esse cara para me fazer ataques. Minha reputação continua a mesma. Estava até esperando coisa pior, que deve vir ainda.

Mas usei esses oito meses para preparar minha família. Dizia: “Olha, vão lendo isso aqui. Essa baixaria vai estar ampliada quando eu começar a cutucar esse pessoal”. Minha preocupação maior era com os meus familiares. Cada vez que minha mulher ficava mais horrorizada com os ataques, eu dizia: “Maravilha — estão se enforcando na própria corda”. Desse pessoal, eu esperava tudo. Acho que a Abril está um pouco mais cuidadosa do que eles. Mas, se dependesse deles, estariam falando da minha mãe, das minhas filhas. Eles não têm limites.

Por outro lado, para mim era terrível, como jornalista, essa história de ver um grupo que conseguia ficar incólume com superpoderes para injúrias e difamações. No jornalismo, em qualquer lugar democrático, toda vez que você vê manifestações de superpoder, ou essa arrogância, é um desafio para a gente. Mas ninguém queria desafiar por que? Porque os jornais foram covardes na hora de defender os seus profissionais.

Não tem nenhum jornalista neste país que respeite o jornalismo da Veja. Eles temem. Temem porque a Veja tem autorização para atirar em cima deles, e seus jornais não vão defendê-los. Foi o que aconteceu comigo na Folha. Quando eu saí de lá, eu falei: “Bom, agora estou por minha conta”. Esperei um tempo para o blog pegar e para a radicalização política diminuir, e aí comecei. Vamos ver no que vai dar.

Se bem que, logo depois do artigo do Leonardo Attuch contra você (“Nassif: o fracasso lhe subiu à cabeça”), o Otavinho deu uma declaração a seu favor…
Esse negócio de que fui demitido da Folha porque eu recebia propina — o blog deles estava há oito meses falando sobre isso. Os meus leitores vinham e diziam: “Você não vai responder?”. Não. Se responder, você vai dar munição para um cara desqualificado. Você vai desviar toda a discussão para se defender de maluquices.

O Attuch é conhecido. A Veja, no começo, o atacava — até que fizeram um acordo. Quando veio o ataque do Attuch, foi bom, porque aí o Comunique-se e a Imprensa procuraram o Otávio Frias Filho, e ele esclareceu tudo. Agora, você vê: foram oito meses em que os caras ficaram falando isso aí no portal da Veja, que é maior revista do país. Quer dizer, será que não tem nada de errado com a mídia? Se isso não for uma deformação completa, eu não sei o que é.

Sobre a Globo…
A Globo não tem a mesma baixaria da Veja. A Globo é Ali Kamel.

Mas tem essa questão da superexploração da febre amarela, das crises…
Isso é coisa do Ali Kamel. O jornal O Globo caminhava para ser o melhor do país. Aí entrou o Ali Kamel com essas maluquices dele: o caso da TAM, da febre amarela, apagão, atletas cubanos, etc. O Globo tinha tudo para ocupar o espaço que a Folha deixou e foi comprometido pelo Ali Kamel.

Essa situação tem a ver com a questão da concentração da mídia?
Tem tudo a ver, mas a internet já está democratizando a mídia. Eu recebi aqui alguns e-mails que falam do Mário Sabino brigando com a Folha. A característica desse pessoal é que são todos puxa-sacos. Eles elogiam suas empresas de um tal jeito… Qualquer ser humano com um mínimo de pudor teria vergonha. Faz parte desse perfil.

E é interessante quando você pega o Sabininho. Como ele é caricatura, fica ele todo dia falando do Victor Civita (fundador da Editora Abril), comovido. É inacreditável. Fico vermelho por eles. Aí tinha o Kamel mandando carta toda semana para a Folha, para atacar a Folha e defender O Globo. A Folha era o grande agente de tensão e exerceu um papel de equilíbrio muito importante. Num determinado momento, a Folha deixa de exercer esse papel, e cria-se um pacto tácito entre os jornais.

E eles acham que, com esse pacto fechando a atuação deles, nada do que não quisessem viraria notícia. Não se deram conta do fenômeno da internet. Esse foi o grande engano. Aquela entrevista que a gente fez, acho que foi a primeira que rompeu com essa cortina de silêncio. Isso é resultado do fenômeno da internet.

lala

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